"Se eu
tenho uma maçã e tu tens uma maçã e as trocamos, os dois continuaremos
com uma maçã cada um. Mas se eu tenho uma ideia e tu tens uma ideia e
as trocamos, os dois passaremos a ter duas ideias cada um.”
Bernard Shaw
São muitas as
publicações em diferentes meios de comunicação espalhados por todo o mundo
que evidenciam a abrupta transformação que o planeta está a sofrer. São
também as mesmas publicações as que partilham a visão de que uma mudança
cultural, agora em pleno desenvolvimento, terá o seu máximo expoente num
futuro próximo sem que, no entanto, se saiba o que a provocará nem onde nos
levará.
Pessoas pelo
mundo fora procuram outras alternativas, novos caminhos e novas
possibilidades, algo que responde perfeitamente ao nosso instinto de
curiosidade que nos caracteriza mas que também, e cada vez mais, acontece
por necessidade.
As
possibilidades multiplicaram-se nos últimos vinte anos, os caminhos abrem-se
cada dia e com tantas alternativas parece que ficamos muitas vezes na
mesma. Com pouco esforço é possível encontrar vários exemplos de
descobrimentos e inovações que ajudam a promover o bem-estar, como também
tradicionalismos que perdem todo o seu sentido nos tempos que correm. Ambos
tipos de exemplos podem ser encontrados em relação à educação.
Enquanto esta
transformação parece disposta a não parar, gerações e mais gerações estão
destinadas a educar-se num sistema que estagnou, não oferece resposta ás
necessidades actuais e não parece duvidar nem interrogar-se sobre a sua
função primária (educar seres humanos), nem sobre o seu verdadeiro valor
dentro da sociedade; noutras palavras, perdeu sentido de responsabilidade.
Considero que a
dúvida é o primeiro passo para o descobrimento, crescimento ou evolução e
que isto mesmo se pode aplicar tanto a uma pessoa como a um sistema inteiro,
seja ele educativo, político ou judicial. Ainda mais, que o simples facto de
tentar resolver essas dúvidas, com os seus riscos, oferece a oportunidade de
ir mais além, de perceber que onde estava escuro existe tanto por explorar.
Da leitura dos
textos "All our Cultures: Creativity, Culture and Education" e "An Education
for the future" depreende-se, uma vez mais, a necessidade de reestruturar,
organizar e adaptar o sistema educativo com o objectivo de o encaixar na
realidade mutante que nos rodeia como também com o intuito de o preparar
para o futuro, onde novas formas de vida, novas condições de trabalho, novas
tecnologias e uma mudança social nos pede uma maior responsabilidade que
como seres humanos temos para com o planeta.
Isto passa
fundamentalmente por uma alteração da nossa atitude de pensamento que nos
permita ver um espectro mais amplo da nossa realidade (pessoal e cultural),
e o leve à remodelação dos nossos valores e ao respeito tanto por nós
próprios como pelo mundo que habitamos. Nele, com a Natureza e a diversidade
cultural que o equilíbrio referido nos mesmos textos tem de ser encontrado e
para o qual é preciso começar pelo mais básico, trabalhando habilidades
sociais e criativas que se relacionam com a transformação de percepções e
conceitos.
Num mundo em
constante mudança a percepção do mesmo altera-se e devemos então
perguntar-nos se os conceitos que antes eram válidos, continuam a funcionar
nesta nova realidade. Percepções e conceitos são a base dos nossos esquemas
e teorias mentais que condicionam a nossa maneira de interactuar com o
mundo. É através do trabalho de percepções e conceitos que se pode fazer
entender ao aluno que a sua maneira de pensar não é ponto de referência para
julgar os outros, tornando-se menos crítico e mais compreensivo em relação
ás diferenças, podendo respeitar a maneira de ser de cada um.
Os dois tipos de
educação propostos em "All our Cultures", criativa e cultural, permitem
exactamente explorar esta diversidade sem a submeter a julgamento nem a
considerar ameaçadora, para alargar o nosso conhecimento, aumentar o nosso
respeito por outros pontos de vista e entender a necessidade de criar novas
ideias e novas maneiras de actuar, nas quais a criatividade tem um papel
fundamental.
Muitas provas
podem ser encontradas sobre os benefícios da utilização de técnicas
específicas que promovem a criatividade nos mais diversos âmbitos da
sociedade, deixando de entende-la como algo místico. É verdade que estes
resultados não fizeram com que o mundo, no seu todo, seja um melhor lugar
para viver, mas melhoraram muitas facetas da vida das pessoas tanto a nível
laboral, social, educacional como individual.
Não terá este
facto suficiente valor para apostar nele? Ou serão os nossos medos e
inseguranças os que nos bloqueiam quando nos enfrentamos a algo diferente?
Considero que ambas as perguntas tem uma resposta afirmativa.
Estou de acordo
com a necessidade de criar novas formas de ensino. Para isto há que criar
espaços onde as regras e limites transmitam conforto e confiança aos que
neles participam, para explorar as suas mais variadas formas de expressão.
Estes espaços podem existir dentro e fora das escolas. Dentro das escolas
entendo que há que começar pela revisão do curriculum decidindo que matérias
se podem omitir. Com os meios tecnológicos à disposição de alunos e alunas
que com onze anos ou menos já navegam na net e entram em chat com pessoas de
todo o mundo, é posssível dar mais responsabilidade a estes seres
competentes e com vontade de aprender, para procurar e investigar através do
computador as matérias que consomem semanas e semanas durante o ano lectivo.
Por outro lado, os professores têm que ser modelos que para além de ensinar,
acompanham e ajudam os alunos nas suas dificuldades e no seu crescimento
pessoal, desenvolvendo outras facetas importantes num curriculum académico
como são a emocional, criativa ou cultural.
Podem-se também
desenvolver outras actividades extra-curriculares, intercâmbios
inter-escolas dentro e fora do pais, ou workshops relacionados com
diferentes temas, entre muitas outras. Os alunos de hoje precisam de mais
estimulação que uma mesa, uma cadeira, um papel, uma caneta e um professor a
ler em voz alta o livro de estudo, pois sabem onde conseguir essa
estimulação noutros ambientes com outros meios. Depende de nós definir o
tipo de relação que queremos, no entanto, pouco parece ser feito para mudar
esta atitude.
Fora da escola
poderiam, por exemplo, realizar-se acampamentos ou utilizar quintas
abandonadas por todo o país, para de uma maneira mais continuada os alunos
tivessem possibilidades de se descobrirem tanto a si mesmos como ao mundo.
Imaginemos por exemplo uma quinta que durante duas ou três semanas é
habitada por um conjunto de pessoas que partilham experiências em diferentes
actividades. Estas podem ir desde trabalhos agrícolas ou jardinagem a
workshps de música, teatro entre outros, de caminhadas por roteiros que
permitam conhecer tanto fauna como flora ao treino em habilidades sociais e
criativas utilizando métodos específicos (como o método dos seis chapéus
para pensar de Edward de Bono e outros), da utilização de energias
renováveis ao conhecimento de técnicas de relaxamento, da confecção de
comidas com novos sabores de outras culturas assim como da nossa, ao
contacto directo com pessoas integradas no mercado de trabalho que contam a
sua experiência.
Ambas as
possibilidades requerem um investimento económico e individual por parte
daqueles que intervêm na educação de gerações cada vez mais descontentes com
o actual sistema. Tal como diz Howard Gardner "teremos menos horas para
dormir" pois o esforço para criar novos caminhos é grande mas a recompensa
do mesmo talvez surja antes do que esperamos e beneficiará tanto alunos como
professores.
Jonh Sulton, um
dos mais importantes cientistas a nível mundial na investigação do código de
ADN, também se pergunta onde levaram os seus descobrimentos. Diz que em vez
de querermos criar super homens e super mulheres de olhos azuis,
atléticos/as e com cérebros prodigiosos, devemos entusiasmar-nos com a
diversidade humana. "As possibilidades cientificas são enormes mas também
tão assustadoras."
O equilíbrio não
vai ser encontrado por nenhum megacomputador mas sim vai ser determinado por
homens e mulheres. Entendo este problema reconhecendo que a nossa capacidade
de alterar o planeta (e de o destruir) está a crescer exponencialmente, pelo
que considero que podemos sentir-nos outro elemento mais dentro da Natureza.
Depende, em grande medida, do tipo de relação que queremos estabelecer com
estes elementos para encontrar o equilíbrio.
Estaremos
dispostos a melhorar as condições de vida presentes e futuras ou
continuaremos a preocupar-nos somente com o nosso umbigo? Vamos alguma vez
duvidar das nossas acções e pensamentos ou vamos proteger a nossa autoestima
de qualquer tipo de embaraço sem nos perguntarmos se haverá outra maneira
melhor de agir?
Temos, hoje em
dia, meios tecnológicos para ajudar esta remodelação educativa, alguns temos
a consciência desta transformação mundial e daí o nosso descontentamento em
como a sociedade está a mudar. Falta saber se temos vontade (ou valor) de
fazer com que o nosso passeio pelo mundo seja mais agradável e rico,
começando pelas nossas próprias vidas, pois não se está a falar de outra
coisa que não seja saúde.
Já, desde há
séculos que na cultura chinesa se exploravam as emoções, relações sociais,
hábitos de trabalho e ambiente para determinar o estado de saúde do
paciente, que seria resultado destas funções internas e externas. Todas as
artes guiadas por esta cultura têm como finalidade a exploração da energia
(ch'i) que está dentro de nós, a exploração das formas em como esta energia
é interiorizada e expressa é uma exploração do espírito que guia as nossas
acções, governa o nosso futuro e nos dá a possibilidade de curar-nos a nós
mesmos e ao planeta onde vivemos.
Sem pretender
entrar a analisar em profundidade esta interpretação, acho que é uma boa
maneira de visualizar como o equilíbrio aqui comentado, depende da
interacção de diferentes factores que nos permitem uma melhor adaptação ao
ambiente e onde a pessoa é o ponto de partida.
O meu ponto de
vista sobre este problema é holista, que mais que fazer desaparecer sintomas
tenta actuar a um nível mais global, daí a enorme alegria ao ler os dois
textos.
Assim, a dúvida
não está em se podemos fazer mais ou melhor mas sim em se queremos. E aí,
todos temos uma palavra a dizer.
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