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A narrativa e a memória das emoções ou... a história do boneco de neve que vivia com uma girafa artigo de Ana Cláudio |
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Esta é a história de um bocadinho de vida de uma professora que queria salvar o mundo e controlar todos os aspectos das suas emoções.
Coitada! Do que os professores se lembram...
Há alguns anos atrás esta professora foi colocada numa escola do Sobral de Monte Agraço, um concelho rural que ela mal conhecia. Foi lá parar para um lugar de Apoio Educativo sem saber, nem sonhar, os alunos que por lá ia encontrar. Mas também é sempre assim, nunca sabemos quem encontraremos, o que pode ser estimulante. Às vezes, claro!
De facto, o panorama não era muito animador. Existiam casos complicados. Todas as deficiências são complicadas, mas lá que as há umas piores que outras, também há!!! Enfim, nada que assustasse essa destemida professora...
E como a dita professora é a narradora desta história, ou seja eu, nada melhor do que falar na primeira pessoa.
Tomem agora atenção à história que aí vem e que deixou a dita professora, ou seja eu, com o coração nas mãos e é o ponto de partida para a reflexão que se pretende.
“A Andreia chegou à sala de Apoio Educativo com o semblante fechado. Tem 15 anos, frequenta o 10º ano. A recepção da comunicação está seriamente comprometida pois à surdez severa juntou-se a baixa-visão. A vida escolar transforma-se, por vezes, num fardo incomensurável. Quando chegou à sala já lá se encontrava o Alberto, deficiente motor com deficit cognitivo significativo, cujo maior prazer era trabalhar com barro, actividade a que se dedicava quando chegou a Andreia. A Andreia passava horas naquela sala, agarrada à lupa TV que lhe permitia ter acesso à leitura. Naquele dia, sentou-se junto ao Alberto e começou a mexer no barro (não costumava querer fazê-lo pois não queria ficar com as mãos sujas). Calada, sem mostrar uma ponta do seu sorriso luminoso, nem dando a ouvir o timbre sereno da sua voz, modelou um pequeno boneco de neve em que eram visíveis os olhos, o nariz, a boca, o cachecol, os braços, a vassoura e o chapéu. Todos estes pequenos elementos eram, para a Andreia, apenas perceptíveis pelo tacto. Durante o tempo em que esteve a modelar, Alberto que se dedicava à mesma tarefa, ia conversando, com a sua dicção difícil de entender. Andreia, que “ouve” fazendo leitura labial, nunca o entende, mas conseguem comunicar através das expressões do rosto, do corpo... - “Já está!” – disse Andreia mostrando o boneco. - Percebe-se o que é? Ao que o Alberto prontamente responde: -“É um boneco de neve, claro! - “Não sei porque fiz isto. Até nem acho muita graça aos bonecos de neve. Quando os outros os desenham, ou pintam, quase não os vejo porque são todos brancos. Às vezes só percebo mesmo as coisas que têm alguma cor e mais escura. O corpo do boneco não consigo percebê-lo. E este que fiz é ao contrário, olhando só percebo o corpo, as outras coisas só passando com as mãos. Andreia continua a associar o seu boneco consigo. - Sinto-me gelada como um boneco de neve. Deve ser porque ninguém me vê, como eu que não vejo os bonecos de neve brancos. Na minha turma parece que não dão por mim, esquecem-se que não vejo e não ouço. Hoje abriram os estores todos e aquela luz não me deixou ver nada de nada. Já estou farta de dizer sempre a mesma coisa, de pedir as mesmas coisas... estou cansada. Fico como os bonecos de neve, não saem do mesmo sítio, só derretem. Estou farta desta conversa, estou sempre a pensar nestas coisas. Não devia era andar na escola. Devia estar enfiada em casa e pronto já não dava ‘chatices’ a ninguém. O que é que tu fizeste Alberto? Alberto, que se tinha mantido em escuta atenta durante todo o tempo, mostrou as suas formas em barro pouco definidas pois trabalhava apenas com uma mão. - Fiz uma piza, uma salsicha, um pacote de sumo de tomate e um salame. “Traduzi” para a Andreia o que ele tinha dito e esta ri-se, dizendo. - Ora assim é que é, pensar em coisas que valem a pena. Comida. Já estás com fome para o almoço? - Estas são para ti – dá-lhe as peças de barro, para dares ao boneco de neve, ele está triste, tem fome. Andreia tacteou cuidadosamente as peças de Alberto e colocou-as à volta do boneco de neve. - Obrigada – disse, o boneco ficou muito mais satisfeito. Entretanto, veio uma funcionária buscar o Alberto para o almoço e outro aluno chegou a pedir informações. Andreia ficou por alguns minutos sozinha na sala. Quando voltei a entrar já havia um novo personagem: Andreia tinha modelado uma girafa. - Esta girafa vai viver ao pé do boneco de neve. Como tem o pescoço comprido pode chegar a outros locais e ver mais alto. E as pernas vão ajudar a correr outros caminhos. Eu também sou a girafa. Diga ao Alberto que a comida que ele ofereceu ao boneco de neve fizeram uma girafa. Vou ter com os meus colegas. Eles vão ter de me compreender. Não vou desistir.”
Fiquei sozinha na sala, olhando o boneco de neve e a girafa e “com o coração nas mãos”. Gelei e colei no local em que estava, tal como o boneco de neve, aflita para não derreter. Se deixasse o meu coração saltar, a neve derreteria e em lágrimas se transformaria... até rima. Pois como devem estar a calcular foi exactamente isso que aconteceu. As lágrimas saltaram olhos fora, qual degelo primaveril! Ainda bem que não estava ali ninguém... o que iriam pensar se me vissem a chorar?! Sim, porque os professores ou professoras são como os homens, não choram!!! Onde é que já se viu uma coisa destas, afinal se um aluno visse um professor a chorar podia pensar que ele/ela era humano, não é verdade?! Que coisa terrível!!! De facto, fiquei aflita quando senti aquela explosão dentro de mim. Corriam as lágrimas, apertava-se o peito (não fosse o coração saltar!) e todo o corpo se contraía num esforço para se controlar. Aos poucos e depois de muitas expirações e muitos lenços de papel, fui secando a torrente e regulando a respiração. Afinal o que tinha acontecido que me provocara tão grande emoção?
A Andreia sensibilizava-me particularmente. É uma jovem linda mas que, desde os três anos de idade começou a perder a audição e, posteriormente a visão. Aliás, nem se sabe muito bem quando terá começado a perder a visão porque o escondeu durante muito tempo. Só este ano é que começou a assumir perante os colegas que precisava de condições diferentes para ver (os estores corridos nos dias de sol, por exemplo), a pedir materiais ampliados aos professores e a fazer a distinção entre o ‘não compreendo’, ‘não vejo’, ‘não ouço’. Estava a ser um ano muito complicado para a Andreia, porque assumir as deficiências perante os outros é tarefa difícil, muito difícil. Dizer-lhes: “olhem para mim, vejam como sou diferente” não será de todo fácil, muito menos aos 15 anos de idade. Este caminho, o de assumir as diferenças, sem perspectivar qualquer hipótese de cura, de alteração positiva, estava a ser muito doloroso para ela e, de outra forma, obviamente, para mim também. Afinal, à medida que ia trilhando esse caminho com a Andreia, estava também a visualizar as minhas fragilidades, as minhas deficiências, os meus defeitos, incoerências, e os medos (muitos medos), etc., etc. e, além do mais, estando a Andreia em plena adolescência, também estava a lembrar a minha própria adolescência e as suas vicissitudes. Acresce a tudo isto que a minha filha mais velha é da mesma idade e frequenta o mesmo nível de ensino, noutra escola e noutra localidade (felizmente). Grande confusão que tudo isto às vezes provoca. Separar as águas nem sempre é fácil. Fazer com que todas as experiências e coincidências se potenciem positivamente será o ideal, mas muitas vezes não passa disso mesmo, de um ideal. Estas explosões emocionais não eram novas para mim. Estes “degelos” aconteciam/acontecem sempre que eu me deixava/deixo gelar, ou seja, quando continha/contenho durante muito tempo e sem “tratamento” este sentimento de impotência associado a uma espécie de ‘culpa sem a ter’ que não raras vezes aparece defronte de situações em que, primeiro temos de as aceitar tal qual existem e até aceitar que não vão existir melhorias na situação. Por vezes, muitas, sabemos exactamente o contrário, que são doenças progressivas, degenerativas e quase nada há a fazer. Então, se não há nada a fazer, o que fazer? Parece uma contradição, não é? Talvez seja ou talvez não. Quando não há nada a fazer temos de mudar o registo do olhar. A Andreia parece que não vai deixar de ser surda nem a sua visão aumentará (nunca se sabe, com todos os avanços tecnológicos!) Para já vai ter de aprender a viver o melhor possível com as suas limitações e potenciar ao máximo outras capacidades que possua. Ela e os que privam com ela, eu inclusive. Ou seja, eu tenho de deixar de pensar “Ah, se esta miúda ouvisse e visse, o que ela não conseguiria!” este era o pensamento “congelador”, o da impotência, que me deixava de olhos turvos sem saber o que fazer, que me tirava a capacidade de pensar e agir de forma adequada. Este pensamento tinha uma função, a de me afastar da “coisa em si”, a de me isolar do medo que sentia de não agir da forma correcta, o medo de falhar, o medo de não conseguir”salvar o mundo”, o medo de também não conseguir lidar com as minhas fragilidades, o medo de que algo de catastrófico pudesse acontecer a algum dos meus filhos, familiares, amigos, medo da inevitabilidade da vida, medo do gostar, do amor, do afecto pelos outros e dos outros para comigo, E foi isso que mudou naquele dia, do já distante ano lectivo de 2002/2003. Um boneco de neve sozinho é muito triste, pois quase não se vê no meio da neve e, ali preso à própria neve não sabe o que se passa à volta. Precisa de facto de companhia. E o meu boneco de neve fez-se acompanhar pela girafa. “Como tem o pescoço comprido pode chegar a outros locais e ver mais alto. E as pernas vão ajudar a correr outros caminhos.” Eu também sou a girafa. Mesmo sendo impotente perante a situação física/clínica, não o sou pelo lado humano, pelo lado dos afectos. Não esquecendo o lado técnico. Saber mais sobre surdez e baixa visão ajudaria a perceber melhor as dificuldades porque passava e as formas de as atenuar, daí o ter aprendido Braille e o ter ensinado à Andreia, entre outras coisas. O boneco de neve e a girafa ficaram na sala, expostos, acompanhando quem por ali passava. Uns dias depois, Andreia perguntou porque tinha eu mantido os bonecos á vista. Não deixei escapar a oportunidade e falei-lhe do ‘meu boneco de neve e da minha girafa’. Da lição que ela me tinha dado de não desistência, de resistência. Do bom par que os dois bonecos faziam pois o boneco de neve sem a girafa ficava realmente muito limitado mas a girafa também precisava do boneco de neve para a fixar, dado ela correr o risco de correr sem parar e sem saber para onde ia... Foi uma longa e emotiva conversa em que valeu a pena investir. A abertura que me permiti ter e que foi retribuída tem dado muitos frutos. A Andreia é uma boa aluna, boa amiga e colega. É uma jovem sensível e preocupada com o mundo à sua volta. Investe em si e no seu futuro e, tem progressivamente vindo a aceitar e lidar melhor com as suas limitações que são grandes, muito grandes e difíceis. As suas crises depressivas são inevitáveis e, em vez de as negar ou delas fugir, têm sido trabalhadas. As minhas também. Quando me sinto a desistir a girafa sorri-me e ajuda-me a ‘esticar o pescoço’ para ver mais longe e as suas pernas dão energia às minhas para caminharem de forma segura. A finalizar este trabalho não posso deixar de pensar que, se a Andreia o quisesse ler não conseguiria pois estas letras elaboradas e o seu tamanho não o permitiriam. Também não seria necessário. Depois destes anos de convívio quase diário a relação fortaleceu-se. Bastaria escrever na sua letra preferida (verdana, tam.22): obrigado por me ajudares a crescer.
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Palavras chave: Necessidades Educativas Especiais
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