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1.Jan.200
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Aprendizagens e Ambientes Construtivistas -

Contributos do Pensamento Crítico e Criativo

artigo de João Conde

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RESUMO

Partindo de algumas definições de modelo de aprendizagem construtivista, reflecte-se sobre a pertinência do desenvolvimento de um pensamento crítico e criativo na integração das novas tecnologias nestes ambientes.

“Não se pode pensar sobre o pensamento, a não ser que se pense sobre o pensamento acerca de alguma coisa”  Seymor Papert, 1996

 

Índice

Aprendizagens Construtivistas

Ambientes Construtivistas

Notas Finais

Bibliografia

 

1. APRENDIZAGENS CONSTRUTIVISTAS

O modelo de aprendizagem construtivista assenta na ideia de que o aprendente (1) deve construir conhecimentos novos em qualquer situação, cabendo ao professor (2) o papel de criar as condições para a invenção, em vez de fornecer conhecimentos já consolidados, seguindo a máxima Piagetiana “compreender é inventar”. Por outro lado, o comportamentalismo («behaviorism»), apoia-se na noção de que para ensinar um comportamento complexo é necessário decompô-lo em partes, que serão depois ajustadas, originando um produto único e coerente.

 Segundo Papert (1996) existem três tipos de aprendizagem ou de relacionamento com o conhecimento:

  • a aprendizagem de estilo familiar, autodirigida, experiencial e não verbal, dominante nos primeiros dois ou três anos da vida;

  • a aprendizagem de estilo escolar, essencialmente verbal, constituída por aprendizagens que se encontram dependentes das explicações ou dos ensinamentos dos adultos;

  • o retorno ao primeiro estágio, onde o aprender a ler permite ao aprendente voltar a ter o controlo do processo, com a característica fundamental de o indivíduo dispor agora dos meios para procurar por si o conhecimento, as fontes deste e a associação voluntária com outros. Na  realidade, diz-nos Papert, este estádio deve ter existido antes da escrita, e mesmo actualmente, num mundo dominado por ela, alguns indivíduos conseguem ainda encontrar outros caminhos para expressar a sua criatividade intelectual, entendida aqui como uma aptidão para formar uma ideia geral sobre qualquer coisa a partir de excertos de conversas e de informações.

A corrente da cognição e aprendizagem situadas, pode fornecer um quadro teórico mais realista e abrangente, facilitando o desenvolvimento de uma psicologia educacional mais capaz de lidar com o complexo fenómeno da aprendizagem escolar (dos saberes instrumentais e dos saberes-fazer associados às várias disciplinas), contrapondo-se a uma outra concepção teórica dominante sobre a actividade mental, que era a de comparar a mente humana com um processador activo e solitário da informação, menosprezando as fundações biológicas da mente e as ferramentas e sistemas simbólicos e sociais em que se apoia para realizar as actividades.  Assim, aprender implica construir conhecimento e ter em conta não só o sujeito individual mas os contextos sociais e culturais onde ocorre a aprendizagem. Esta corrente por ser mais sensível às variações contextuais e culturais de cada ambiente educativo, preconiza modelos instrutivos onde a progressiva participação dos aprendentes nas práticas desenvolvidas por cada comunidade, que inclui as práticas discursivas, o saber-fazer e a utilização dos recursos, são valorizadas. Isto não exclui a aprendizagem de competências básicas valorizadas pelos behavoristas e a aquisição e reestruturação conceptual preconizadas pelos psicólogos cognitivistas, pois estes são aspectos considerados como válidos para a participação dos aprendentes e para a construção das suas identidades de aprendentes (Miranda, 1999).

Um dos componentes do modelo de Brown, Campione e colaboradores (1994-1995) é o método do ensino recíproco onde se permite, precisamente, desenvolver um ambiente de aprendizagem e uma nova cultura de sala de aula que se baseia numa atmosfera de responsabilidade individual conjugada com a partilha de interesses e conhecimentos entre todos os membros da classe, no respeito entre os aprendentes e entre estes e o professor, no desenvolvimento de uma comunidade de discurso, facilitadora de discussões construtivas, questionamento e crítica, e num número restrito de estruturas de participação postas em prática (Miranda, 1999). 

Enunciarei de seguida, três teorias que temos que ter em consideração se quisermos que os aprendentes se tornem competentes (Resnick 1983, Resnick & Glasser 1986, Mendelsohn 1994 e De Corte 1995, citados por Miranda, 1999):

  • teoria de conhecimento especializado, que descreve como os conhecimentos e os saberes-fazer de um sujeito bem treinado estão organizados na memória;

  • teoria de aquisição,  que explica os processos de aprendizagem e de desenvolvimento necessários para alcançar uma realização competente

  • teoria de intervenção, que descreve os métodos de ensino e as estratégias instrutivas mais apropriadas e efectivas para facilitar tais processos).

Para Bruner (1973, citado por Miranda, 1999) competência é uma actividade que implica adaptar-se ao ambiente e ser capaz de o transformar, incluído o saber que (aquisição de informação) e o saber como (aquisição de saberes e sobretudo saberes-fazer). Assim, competência implica acção. Este autor confere ao currículo (geral e de cada disciplina) e ao professor, que faz a mediação perceptiva, cognitiva e emotiva, entre o currículo e o aprendente, uma grande importância, visto que na escola, contrariamente aos saberes contextualizados apreendidos durante a primeira infância no ambiente familiar, predomina o saber e saber-fazer descontextualizado. No entanto deve caminhar-se no sentido da autonomia progressiva do aprendente. Só assim o sujeito não será entendido apenas como um local de construção e confrontação de estruturas (Piaget,1975) ou de agentes  (Minsky,1987) ou de organização de esquemas e chunks, mas também como um centro de decisão, de controle e gestão do conhecimento (Miranda, 1999).

Vou de seguida abordar uma outra vertente importante numa aprendizagem efectiva - as componentes afectivas/emocionais. Ao passarmos de uma sociedade da industrialização para uma sociedade da informação, temos de nos acostumar à incerteza, à participação e à construção colaborativa do conhecimento. Partindo dos protótipos de Jung e tomando em consideração os estudos de inteligência múltiplas de Gardner (1995), a inteligência emocional de D. Goleman (1997,1999), a corrente praxiológica do aprender de Dewey e a própria teoria interactiva da criatividade de Saturnino de la Torre (1997), chegamos à conclusão de que em todas as pessoas existem uma série de impulsos ou tendências básicas que se manifestam na vida quotidiana, nas decisões laborais, nas relações sociais e nos processos de aprender e criar (Torre, 2001). Existe ainda uma necessidade urgente de encaramos a educação emocional, entendida por R. Bisquera (1999) como “um processo educativo, contínuo e permanente, que pretende potenciar o desenvolvimento emocional como complemento indispensável do desenvolvimento cognitivo, constituindo ambos elementos essenciais ao desenvolvimento da personalidade integral”, enquanto valor de equilíbrio pessoal e de relação humana, não se esgotando assim a educação numa mera transmissão de conteúdos culturais desvinculados da pessoa enquanto ser que não só pensa como também sente e comunica . A educação emocional deveria ser assim, na opinião de Goleman e de Csihszentmihalyi, um valor transversal aos conteúdos formativos, apoiando-se essencialmente na metodologia docente, isto é, educarmos as competências emocionais através de atitudes, climas e modos de interacção (Torre, 2001).

Aprendizagens relacionadas com situações reais que sejam representativas dos cenários que os aprendentes irão encontrar no futuro e onde terão que usar os conhecimentos e competências apreendidas (De Corte,1994), poderão ser consideradas como ambientes de aprendizagem “poderosos”, visto incentivarem nos aprendentes as aptidões e predisposições anteriormente referidas, e considerarem a aprendizagem não como um processo passivo e individual de absorção de conhecimentos e treino de competências básicas, mas um processo de construção de conhecimento significativo (Miranda, 1999).

 Para esta aprendizagem ser construtiva, deverá:

  • estar o aprendente cognitiva e afectivamente envolvido no processamento da informação, não devendo o professor impor a sua estrutura e estilo de pensamento aos aprendentes mas antes criar condições, problemas e exercícios que conduzam os aprendentes para níveis superiores de conhecimento, (Papert  contrapõe construcionismo a instrucionismo);

  • ser cumulativa, na construção de novos conhecimentos formais e informais com base em conhecimentos anteriores;

  • ser auto-regulada, como garante de uma progressiva autonomia do aprendente na procura de informação e de correcção do seu trabalho;

  • ser orientada para determinados objectivos, explicitados pelo professor e em níveis avançados negociados e assumidos pelos aprendentes;

  • ser situada/contextualizada, concebendo a aprendizagem como um processo progressivo de participação numa comunidade de práticas  (Lave & Wenger, 1995) distanciando-se da corrente do processamento da informação (De Corte, 1994,Miranda, 1999).

É importante referir também o desenvolvimento das estruturas cognitivas e da descentração cognitiva, no que respeita à capacidade de ser capaz de cooperar com os outros, ouvindo os seus argumentos e contra-argumentando. Assim, sendo a aprendizagem sobretudo um processo de interacção social, promovido pelo professor, e no que respeita à transferência de conhecimentos, entendida esta como a generalização e aplicação de conhecimentos apreendidos num dado contexto ou situação para outros contextos ou situações de aprendizagem, ela tem que ter em conta as variáveis associadas aos sujeitos. Estudos (Brown, 1989; Brown & Campione, 1990; citados por Miranda, 1999) apontam para que os sujeitos que transferem melhor sejam aqueles que se distinguem por terem desenvolvido aptidões classicamente consideradas como pertencentes à metacognição, tais como variáveis de tarefa, avaliadas pela proximidade da situação inicial de aprendizagem quanto ao transfer, isto é, dentro da mesma temática em que varia o conteúdo mas mantendo-se os processos de solução.

 

(1) Utilizo o termo aprendente, para forçar o sentido, de  ser aluno e/ou  formando, apesar de formalmente significarem a mesma coisa.

(2) Professor ou Formador

 

Miranda (1999) questiona como conceber ambientes de aprendizagem poderosos que incentivem nos aprendentes os processos de aprendizagem que conduzam à aquisição e à transferência das aptidões e disposições antes referidas. Segundo esta autora, uma possível resposta poderá passar pela relação bidireccional, teoria-prática-teoria.

 

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2. AMBIENTES CONSTRUTIVISTAS

Segundo D. Jonassen (1996), não é um dado adquirido que os estudantes aprendam com os computadores, apesar de ser uma certeza de muitas aplicações informáticas, mas sim que os estudantes aprendam a pensar de outras maneiras. O mais apropriado, na sua opinião, deverá ser o uso do computador como uma ferramenta cognitiva,  no acesso à informação e na interpretação e organização do conhecimento pessoal, melhorando o funcionamento cognitivo dos aprendentes e comprometendo-os nas operações cognitivas, enquanto estão a construir o conhecimento. Assim como um carpinteiro precisa de um conjunto de ferramentas específicas para trabalhar com a madeira, os estudantes não conseguem trabalhar com eficácia, sem recorrer a um conjunto de ferramentas intelectuais que os ajudará a construir o conhecimento. Aprendentes mais criadores de conhecimento do que receptores de representações, poderão assim usar com mais eficácia certas aplicações informáticas, como reflexões cognitivas e instrumentos de ampliação, que os ajudarão a construir as suas próprias representações de um novo conteúdo e a organizar e representar o que eles sabem.

Construtivismo está assim relacionado com o processo como os aprendentes constróem o seu próprio conhecimento, dependendo daquilo que eles já sabem, das sua próprias experiências e da maneira como as organizaram em estruturas de conhecimento. Construímos assim a nossa própria realidade através da interpretação das nossas experiências. Como a realidade não existe na sua plenitude no “mundo real”, o professor não consegue assim “cartografar” ou “interpretar” o aprendente porque os dois não partilham as mesmas experiências e interpretações. Assim, a realidade (ou o que designamos de realidade) reside na mente de cada um, que interpreta o mundo exterior de acordo com as suas experiências, crenças e conhecimentos. Os modelos construcionistas de ensino apostam assim na criação de ambientes de aprendizagem, onde os estudantes constróem activamente o seu próprio conhecimento, em vez de recapitularem a interpretação do professor do mundo. Em ambientes construcionistas, tais como ao usar os computadores, os aprendentes deverão estar activamente empenhados em interpretar o mundo exterior, reflectindo essas experiências no seu próprio conhecimento. Se os aprendentes constituírem activamente as suas próprias interpretações do mundo, sentem-nas mais como sendo as suas e não as de outros, e portanto ficam com mais hipóteses de elas não degenerarem ao longo do tempo (Jonassen 1996).

A Teoria das múltiplas inteligências de Gardner, fornece uma boa base teórica, ao reconhecer as habilidades e os talentos diferentes dos aprendentes, isto é, nem todos os estudantes podem ser verbalmente ou matematicamente dotados, podendo contudo ter perícia em outras áreas, tais como a música, relações espaciais ou conhecimento interpessoal. Aproximar e avaliar a aprendizagem desta maneira, permite que uma maior percentagem de estudantes participe com sucesso na sua aprendizagem. Uma reivindicação da teoria de Gardner é que uma melhor avaliação deve permitir que os estudantes apresentem  o material à sua própria maneira, usando as diferentes inteligências. Os métodos preferidos da avaliação, para esta teoria, incluem portfolios do estudante, projectos independentes, jornais do estudante, e atribuição de tarefas criativas por exemplo. Esta teoria tem igualmente diversas implicações para os professores que, como todas as oito inteligências são precisas para funcionar produtivamente na sociedade, devem consequentemente pensar em todas as inteligências como igualmente importantes, em  contraste com os sistemas de instrução tradicionais, que colocam tipicamente uma ênfase forte no desenvolvimento e no uso de inteligências verbais e matemáticas.

Outra implicação é que os professores devem estruturar a apresentação do material num estilo que conjugue a maioria ou todas as inteligências. Um exemplo, é quando se ensina sobre um conteúdo, um professor pode mostrar aos aprendentes esse conteúdo sobre diversas formas, texto, música, dança, multimédia, etc. Este tipo da apresentação incentiva os  estudantes à aprendizagem, mas permite também que um professor reforce o mesmo material numa variedade de maneiras, activando uma variedade grande de inteligências. Ensinar desta forma pode facilitar uma compreensão mais profunda.

 Todos possuímos as diversas inteligências investigadas por Gardner, não obstante, todos desenvolvemos mais umas que outras. Assim os aprendentes chegarão à sala de aula com jogos diferentes de inteligências desenvolvidas. Isto significa que cada um terá o seu próprio jogo original de forças e de fraquezas intelectuais. Estes jogos determinam o fácil (ou difícil) que é, para um estudante, apreender a informação quando esta é apresentada numa maneira particular, isto é, restrita só a um estilo da aprendizagem, quando sabemos que muitos estilos podem ser encontrados dentro de uma sala de aula. Consequentemente, é impossível, assim como pouco prático, um professor adaptar cada lição a todos os estilos da aprendizagem encontrados, não obstante,  podem mostrar aos estudantes, como usar as suas inteligências mais desenvolvidas na compreensão de um assunto onde empregariam normalmente as suas inteligências mais fracas. Tomando o exemplo, o professor pode sugerir que um aprendente com uma inteligência musical especial apreenda sobre esse conteúdo, fazendo uma canção sobre o que aconteceu.

 Donald Norman (1993), distingue entre duas formas de pensamento, a experimental e a reflexiva. Pensamento experimental está relacionado com as experiências com o mundo, experimentamos algo e reagimos automaticamente. Pensamento reflexivo, por outro lado, requer algo deliberado, se encontramos uma situação, pensamos nela, reflectimos sobre ela, com todo o nosso conhecimento, inferimos sobre ela, determinamos as suas implicações e as suas razões. Este pensamento é cuidadoso, deliberado e ajuda-nos a pensar no sentido do que experimentamos e do que sabemos. Requer igualmente ajuda exterior, tais como livros, computadores e outras pessoas. Norman diz-nos que o uso dos computadores, ao apreendermos novo conhecimento pela adição de novas representações modificando as antigas e comparando as duas, pode apoiar o pensamento reflexivo. Donald Schon (1983) em "práticas reflexivas", dá-nos a ideia do pensamento metacognitivo, que mais do que absorver o que o professor diz, os aprendentes precisam de reflectir no que é que sabem, organizando o seu saber e decidir o que é precisam de saber. Assim quando os aprendentes percepcionam e declaram as suas intenções para aprender, aprendem as lições muito melhor. O uso do computador compromete os aprendentes nas necessárias reflexões, que conduzirão a um pensamento construído. São assim um uso reflexivo da tecnologia.

Jonassen acredita que o conceito de pensamento crítico generalizável, com altos níveis de pensamento tais como o lógico, analítico, planificação e dedução, é o mais aplicável e o mais útil para descrever os resultados do uso de certas aplicações informáticas em contexto de aprendizagem. Assim, a primeira hipótese que põe é que através do uso do computador, necessariamente comprometemos o aprendente num pensamento crítico sobre os tópicos do programa que está a estudar, e que resultará numa melhor compreensão dos tópicos desse programa e aquisição de práticas úteis de aprendizagem.

A maior parte dos indivíduos usa grande parte destes tipos de pensamento a vários níveis. Quando executamos tarefas complexas, usamos combinações de diferentes níveis de pensamento. O pensamento crítico surge durante os anos 70 e 80 como uma resposta ao ensino reprodutivo (Paul, 1992), que deixa os estudantes com fragmentos de informação que não estão devidamente conectados e integrados. Assim, é equacionado um pensamento útil com um pensamento lógico, crítico,  disciplinado e auto-dirigido. Os elementos deste pensamento incluem a habilidade para formular, analisar e avaliar diversas questões. A experiência relacionada com o pensamento crítico, centrado na decisão do que se acredita ou no que se faz, ocorre em três dimensões:

  • dimensão lógica, julgando as relações entre o sentido das palavras e das afirmações;

  • dimensão crítica, sabendo com que critério se julga afirmações ao abrigo da dimensão lógica;

  • dimensão pragmática, considerando que o antecedente da proposta do julgamento e da decisão, bem como o da afirmação, são suficientemente bons para a proposta.

As tradicionais visões da concepção do pensamento crítico, segundo Walters (1990), leva-nos para a "vulcanização dos estudantes", por analogia à personagem "Spock" do filme "o caminho das estrelas", em que existe uma incapacidade de pensar e agir ilogicamente. Excelente nas conclusões lógicas, na resolução de problemas e na análise critica, sem ser prejudicado por questões fora da agenda e confusões emocionais, a postura deste personagem é portanto reactiva mas não inovadora. “Spock” acredita que o pensamento lógico, ou racional, é um bom pensamento. Assim centrando-nos somente no pensamento lógico, produziremos “vulcanos” mas não estudantes, que não poderão apreciar as múltiplas perspectivas necessárias a uma construção do conhecimento harmoniosa.

Na sequência desta reflexões, Jonassen desenvolve o modelo do pensamento integrado do IOWA - Department of Education, 1989, que define pensamento complexo como um sistema interactivo integrando as seguintes 3 componentes do pensamento:

  • pensamento básico/sumário, como as práticas, as atitudes e as disposições requeridas para apreender a informação dada, conteúdos básicos académicos, conhecimento geral, senso comum e recordar toda esta informação depois de apreendida. O pensamento crítico, criativo e complexo tem que estar em constante interacção com este conhecimento básico, porque é com este tipo de pensamento que ele opera;

  • pensamento crítico, que envolve uma dinâmica de reorganização do conhecimento em diversas  fases à volta de três práticas:

avaliação - entende-se fazer julgamentos sobre algo através da medição a um standard. Avaliar não é assim uma atitude pessoal ou um sentimento, envolve reconhecimento e uso de um critério em diversas fases, sendo importante reconhecer esse critério quando ele está instável, de outra maneira será melhor recorrer a um conjunto de critérios standard mais comuns. Também é importante que os aprendentes saibam determinar quais os critérios mais apropriados a cada situação. A avaliação da informação envolve avaliar a informação pela sua verdade e utilidade e saber distinguir entre informação relevante e não relevante, determinar critérios para julgar as ideias ou produtos pela identificação de critérios relevantes e determinar como e quando eles serão aplicados, priorizar um conjunto de tarefas de acordo com a sua importância, reconhecer falsidades e erros na informação, verificar argumentos e hipóteses testando-os efectivamente em situações reais;

análise - entende-se separar um todo em partes úteis e perceber as inter-relações entre essas partes, o que ajudará os aprendentes a compreender a organização  das ideias. Analisar o domínio do conhecimento envolve tarefas tais como reconhecer os padrões da organização, classificar objectos em categorias baseando-nos em atributos comuns, identificar suposições e opiniões, identificar as ideias centrais nos textos, dados ou criações, diferenciando as ideias através da informação suporte  que entretanto se pesquisou, encontrar sequências ou ordens consecutivas numa informação sequencial organizada, aqui um bom exemplo é determinar sequências para a preparação de um prato para uma refeição.

ligação - entende-se envolver, determinar ou impôr relações entre os conjuntos que estão a ser analisados, ligando os comparáveis, constratando coisas ou ideias, olhando para a relação causa-efeito e “linkando” os elementos juntos. Ligar e analisar estes conjuntos, requer  tarefas tais como, comparar e contrastar igualdades ou diferenças entre objectos e acontecimentos, analisar ou desenvolver um argumento, conclusão ou inferência, inferir dedutivamente através de generalizações ou princípios, inferir uma teoria ou um principio indutível até à data, identificar relações causais entre objectos e acontecimentos e prever as suas consequências.

  • pensamento criativo requer ir além do conhecimento aceite para gerar novo conhecimento, estando muitas tarefas de pensamento criativo muito perto das do pensamento crítico. As tarefas de  pensamento crítico fazem mais sentido quando se quer ser mais objectivo, tais como analisar e avaliar informação usando critérios estabelecidos ou externos. Pensamento criativo, por outro lado, usa critérios mais subjectivos e pessoais na criação de novo conhecimento, não na análise do já existente. O novo conhecimento também pode ser analisado usando tarefas críticas, sendo assim a relação entre pensamento crítico e criativo, uma relação dinâmica. As grandes componentes do pensamento criativo são:

a síntese - que envolve pensar analogicamente, isto é, criar e usar metáforas e analogias para tornar a informação mais perceptível, sintetizando ideias fortes com as suas próprias palavras, elaborar hipóteses sobre relações entre acontecimentos e prever resultados, planificar processos incluindo procedimentos passo a passo para acompanhamento de actividades;

imaginação de resultados e possibilidades - como uma intuição e uma fluência de pensamento e uma visualização de acções e objectos. Visualização é uma tarefa com que alguns aprendentes sentem alguma dificuldade em desenvolver, devido às diferenças individuais nas habilidades intelectuais. Imaginação requer tarefas tidas como  exprimir fluentemente ou generalizar o maior número de ideias  possível,  prever acontecimentos ou acções que são causados por um conjunto de condições, especular e preocupar-se sobre possibilidades interessantes e resolver questões sem uma lógica de avaliação tais como “e se…”, que envolve a criação de imagens mentais ou a pesquisa mental de acções, a intuição e o pressentimento sobre  ideias e estratégias poderosas, que são impossíveis de ensinar e que na melhor das hipóteses poderão ser testadas noutras tarefas;

elaboração de informação - isto é, adicionar informação pessoal à informação recolhida, relacionando-a com as experiências ou construindo novas ideias. Isto incluiu tarefas como alargar a informação adicionando detalhes, exemplos ou outras informações, modificar, redefinir ou mudar as ideias do que é proposto, expandir as ideias, aplicando-as em diferentes contextos, descrever as categorias de pensamento, assumindo vários pontos de vista e concretizar ideias gerais, dando exemplos e usos das mesmas.

  •  pensamento complexo, tarefas situadas no centro do modelo de pensamento integrado, que combinam os conteúdos do pensamento crítico e criativo num âmbito mais lato do processo orientação-acção. Os três tipos de pensamento complexo são:

resolução de problemas - que passa por seguir um objectivo, que é normalmente a resolução de um problema que é posto, incluindo etapas e tarefas, tais como sentir o problema, pesquisar o problema, formular o problema, procurar alternativas, escolher uma solução e construir uma aprovação;

o desenho - que envolve inventar ou construir novos produtos ou ideias, quer sejam artísticas, científicas, mecânicas ou outras, envolvendo a análise de uma necessidade e respectivo planeamento e implementação de um novo produto, que inclui etapas e tarefas tais como  imaginar um objectivo, formular um objectivo,  inventar um produto,  avaliar um produto e rever o produto;

a tomada de decisão - que envolve seleccionar alternativas de uma forma racional e sistemática, requerendo conhecimento e manipulação de critérios objectivos e subjectivos envolvendo as etapas e tarefas de identificar um assunto,  generalizar alternativas, avaliar as consequências, escolher uma opção e  avaliar a opção.

Devido à construção do conhecimento ser facilitado pela colaboração, é importante a existência de grupos de trabalho em interdependência positiva e interacção face-a-face, com responsabilidades individuais e tarefas interpessoais. Um trabalho colaborativo e cooperativo terá assim mais resultados, isto porque as tarefas requeridas por novos ambientes de aprendizagem, são para a maioria dos aprendentes tarefas novas, visto estarem mais habituados a actividades de memorização e repetição. É também um dos objectivos deste tipo de aprendizagem, que sejam os aprendentes a reconhecer as múltiplas perspectivas sobre qualquer problema, tomando consciência, que a sua concepção do mundo, assim como a do professor, não é a única. Outra característica, é a criação de amplas bases de conhecimento de informação, que quanto mais amplas, mais complexas são. Contudo, uma grande base de conhecimentos requer muito tempo e esforço para pesquisar, necessitando de habilidade e perícia, cujo trabalho colaborativo pode também ajudar.

Uma das maneiras de ensinar para o pensamento crítico (exemplos, Beyer, 1985 e Costa, 1985) podem passar por promover a interacção entre estudantes numa aprendizagem de grupo que ajuda frequentemente cada membro a conseguir mais e melhores resultados e por fazer perguntas abertas que não supõem "uma única resposta certa”, incentivando os aprendentes a pensar criativamente e a responder sem medo de dar a resposta "errada" e reflectir nas perguntas feitas ou nos problemas postos. Assim o pensamento crítico envolve pôr perguntas e reservar o tempo adequado antes de solicitar aos estudantes as respostas, compreendendo que a resposta imediata não é sempre a melhor resposta. Claro que o pensamento crítico na sala de aula é facilitado por um ambiente físico (por exemplo a disposição da sala de aula) e intelectual que incentive um espírito da descoberta.

 

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3. NOTAS FINAIS

É no domínio cognitivo, onde se localiza grande parte da transmissão/aquisição de conhecimentos, que se requer com particular importância a integração das novas tecnologias na aprendizagem (Camlong, 1999), ficando assim o professor, ao delegar na técnica e na linguagem multimédia parte da sua competência comunicacional de transmissão de conteúdos, com o objectivo do desenvolvimento nos seus aprendentes, das capacidades de aplicação, análise, síntese e avaliação, na base de um modelo de aprendizagem integrado,  ao nível da comunicação, com as novas tecnologias de aprendizagem. Já o domínio metacognitivo é fundamental para o desenvolvimento de uma autonomia intelectual e da constituição de um conjunto de valores, através de um espírito crítico e da capacidade de dizer não e/ou propor outro conteúdo, outra história, outro ponto de vista, outra solução, através  do desenvolvimento de um espírito criativo. É neste sentido que se torna importante uma aprendizagem diferente da tradicional que faça a convergência entre vários suportes, presencial, multimédia, hipermédia, assíncrono, síncrono, etc, possibilitando a transmissão de todos os conteúdos programáticos, ficando o professor mais com o papel de desenvolver outras competências dos aprendentes, cognitivas e metacognitivas (Camlong, 1999) deixando de ser o detentor dos conteúdos, com a missão da transmissão da informação, para passar a ter um papel de instrutor e de orientador na construção do conhecimento, animadores no desenvolvimento de identidades e de processos de aprendizagens colaborativas, críticas e criativas (Dias,1999).

É assim importante, uma aprendizagem orientada para os requisitos que a sociedade de informação e do conhecimento requerem (Romiszowski, 1997), não esquecendo de desenvolver competências pessoais, através de uma orientação e monitorização do tutor/professor, que passam por uma autonomia crescente do aprendente, e do desenvolvimento das suas competências críticas, face ao uso das tecnologias interactivas. Ao usarmos na aprendizagem ambientes de hipertexto, as expectativas do aprendente deslocam-se de uma atitude maioritariamente de constatação de factos para a necessidade de correlacionar ideias através do uso dos links (Dias, 1999) e da constante ligação ao contexto real onde esses conteúdos se inserem.

O desenho dos novos ambientes de aprendizagem deverá assim compreender a complexidade cultural e os contextos que são responsáveis pela sua produção, não se limitando somente a colocar à disposição dos aprendentes novos elementos mediadores (Crook, 1998), mas também de descobrirem ambientes estruturados de acordo com situações autênticas que permitam desenvolver as experiências e compreensões do conhecimento nos seus próprios contextos (Dias, 1999). É na realização cognitiva situada, numa perspectiva construcionista, que poderemos verificar como é importante a familiarização do aprendente com o contexto onde essa aprendizagem decorre, tendo em vista a flexibilização do processo de desenvolvimento das representações de conhecimento. Segundo Wilson (1995), os ambientes de aprendizagem construtivistas são espaços onde os aprendentes possam trabalhar juntos, apoiar-se uns aos outros, usar ferramentas da sua cultura incluindo linguagem e regras para cativar o diálogo e a produção de conhecimento, assim como usar recursos de informação na persecução de metas de aprendizagem e na resolução de problemas. Ao dar-se mais atenção a sistemas de ensino mais abertos, menos vinculados a objectivos pré-definidos e mais abertos às iniciativas de aprendentes e professores, de acordo com Crook (1998), favorece-se a integração dos computadores no contexto social da aprendizagem, principalmente, nos aspectos da aprendizagem centrada no aprendente e nos relativos à concepção do computador como um instrumento para pensar, ficando um seu uso mais geral mais adequado para ambientes auto-suficientes e facilitadores. É nesta perspectiva construtivista, que o ambiente informatizado pode ser, também, um instrumento genérico para pensar, partilhar e comunicar para o aprendente, que quando interiorizado por ele, eficazmente, poderá afirmar-se como uma nova capacidade pessoal para a actividade mental. Encontramo-nos assim no desenvolvimento de um novo paradigma educacional baseado na comunicação mediada por computador, que poderá revestir diversas formas, tais como assíncrono ou síncrono on-line, que deverão ser adaptadas à situação de aprendizagem e tipologia da tarefa a desenvolver. (Morais, Miranda L., Dias, Almeida, 1999).

Numa próxima oportunidade pretendo voltar a abordar estas questões, ao investigar certas atitudes de aprendizagem dos aprendentes face ao  tipo de "plataforma" de aprendizagem, tradicional, assíncrona ou síncrona, em que estão envolvidos ou comprometidos.

 

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUALDI, Amy C., Multiple Intelligences: Gardner's Theory, ERIC Clearinghouse on Assessment and Evaluation, 1999.

BREM, Sarah, K. & BOYES, Andrea J., Using critical thinking to conduct effective searches of online resources, ERIC Clearinghouse on Assessment and Evaluation, 2000.

DIAS, P. & Freitas, C. (Org.), Actas da I Conferência Internacional de Informação e Comunicação na Educação, Minho: Centro de Competência Nónio Século XXI da Universidade do Minho, 1999.

JONASSEN, David, Computers in the Classroom: Mindtools for Critical Thinking,  New Jersey: Prentice-Hall, 1996.

MIRANDA, Guilhermina (…), A Aprendizagem feita pelo Ensino: A Questão Básica da Escola, Actas do I Colóquio Nacional “A Ciência Psicológica nos Sistemas de Formação”, Algarve: Serviços Gráficos da Universidade do Algarve (129-148).

MIRANDA, Guilhermina, Contributos da Psicologia Cognitiva para a Aprendizagem Escolar, II Colóquio – Modelos Psicológicos e Intervenções em Contextos Educativos, Universidade do Algarve: ESE, 1999.

PAPERT, Seymour, (1997). A Família em Rede, Lisboa: Relógio de Água Editores.

POTTS, Bonnie, Strategies for Teaching Critical Thinking, ERIC Clearinghouse on Assessment and Evaluation, 1994.

TORRE, Saturnino de la, Educação Emocional, Cadernos de Criatividade nº 2, Lisboa: Associação Educativa para o Desenvolvimento da Criatividade, 2001.

The European Commission, E-learning - Designing Tomorrow Education, Brussels, 2001.

Web-Based Education Commission to the President and the Congress of the U.S.A., The Power of the  Internet for Learning, Washington D.C., 2000.

 

João Carlos N. Conde

Mestre em Ciências da Educação, Área de Especialização - Tecnologias Educativas, para a Disciplina - Teoria e Modelos da Aprendizagem,
Profª Doutora Guilhermina Miranda e Profª Doutora Sara Bahia, Março 2001

joaoconde@e-changing.net