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Manuel Rivas, articulista do
jornal El País, escreve estas palavras elucidativas e perspicazes a
propósito da profissão de professor: "Ser professor não exige apenas um
título académico. Um bom professor do ensino básico e secundário tem que ter
o carisma de um presidente do Governo, o que está certamente ao seu alcance;
a autoridade de um custódio, o que já se torna mais difícil, e os talentos
combinados de um psicólogo, um palhaço, um DJ, um ajudante de cozinheiro, um
puericultor, um mestre budista e um comandante da Kfor. Conheço uma
professora de Ciências Naturais que apenas desarmou os seus alunos quando
demonstrou uns invulgares conhecimentos futebolísticos, o que lhe permitiu
abordar com entusiasmo a evolução das espécies. E um professor de Matemática
que conseguiu conquistar a audiência quando interpretou um rap de
Public Enemy Number One." (El País Semanal, 2 de Abril de 2000)
Segundo este texto, o bom
professor deverá ser polivalentemente criativo. Ao contrário das outras
profissões, em que a criatividade é determinada pelo tipo de especialização
exigida para o tipo de função desempenhada, na profissão de professor é
necessário revelar uma grande capacidade de representação e uma perspicácia
na detecção das necessidades e motivações dos alunos com o objectivo de
interessar e conseguir a participação de uma audiência em que,
frequentemente, a capacidade de concentração e atenção se orienta para
outros horizontes, eventualmente mais atractivos do que o do processo
de ensino-aprendizagem.
O papel do professor consistirá,
portanto, em tornar apelativo e, mesmo atractivo, o que, em princípio, pode
parecer cinzento e descolorido, sem cair, no entanto, na facilidade gratuita.
Isto significa que deve conhecer minimamente o universo em que se movem os
seus alunos, um universo muito subordinado aos meios audiovisuais, às
estrelas do pop-rock e às mutações contínuas das modas, a fim de lhes
despertar uma criatividade, cada vez mais submergida num mundo em que os
jovens se reduzem a alvos de estratégias publicitárias que os reduzem ao
papel de meros consumidores passivos. Deve partir-se, então, desse universo,
que não difere substancialmente da caverna platónica, para o transformar,
elevando os alunos à dimensão do conhecimento e da consciência do mundo em
que estão inseridos. Só assim se poderão transformar em sujeitos activos e
empreendedores e em cidadãos empenhados na resolução dos problemas
colectivos.
Não está em causa a criatividade
do aluno, pois todos os seres humanos são criativos, embora alguns o sejam
mais do que outros. Em geral, acontece que a maior parte dos indivíduos não
têm possibilidade de manifestar livremente a sua criatividade durante toda a
sua existência, já que desempenham uma tarefa laboral repetitiva, monótona e
dependente das ordens que recebem das chefias. A criatividade manifesta-se,
antes de tudo, pela capacidade de inovar e de resolver problemas inesperados,
bem como pela capacidade de decidir autonomamente e, sobretudo, pelo
inconformismo: não aceitar passivamente tudo aquilo que a tradição, a moda e
as opiniões dominantes pretendem impor incondicionalmente. Hoje em dia, a
criatividade está cada vez mais ligada ao inconformismo e ao desenvolvimento
de uma capacidade crítica que penetra para além do imediato, das aparências
para detectar os mecanismos reais de funcionamento da economia, da sociedade
e da política, para além do horizonte cerrado dos índices bolsistas e das
campanhas publicitárias em que se transformaram as eleições nas sociedades
liberais-democráticas.
Como professor de Sociologia do
12º ano de escolaridade, pretendo desenvolver uma dimensão da criatividade
dos alunos, criatividade que é sempre multifacetada, pelo menos na
adolescência, período das dúvidas e das indecisões, mas também das apostas:
a sua capacidade crítica de forma a orientar o seu inconformismo. Tarefa
difícil, antes de tudo porque é a primeira vez que os alunos contactam com a
disciplina. Segundo, por um conjunto de pré-noções que já possuem e que os
leva a identificar a Sociologia como uma disciplina em que se fala sobre "a
sociedade", mas sem saber ao certo quais são as grandes estruturas, normas e
valores que numa determinada época, neste caso, a nossa, regem os
comportamentos e as relações sociais. Em terceiro, porque pensam que em
Sociologia tudo se pode dizer acerca de tudo e, em consequência, estudar o
menos possível.
Neste contexto, desenvolver a
criatividade do aluno passa menos pela utilização de métodos e técnicas
analógicas e mais pela utilização do método "questionar para pensar" e,
sobretudo, do método antitético, tentando sobretudo levar os alunos a
construir cenários futuros, que alguns poderão designar por cenários
fantásticos. Tendo em conta o objecto e conteúdos da Sociologia, estes
métodos não devem ser concebidos como um jogo para estimular as capacidades
lúdicas ou dramáticas dos alunos, mas como uma forma de tomarem consciência
do mundo em que estão inseridos - "questionar para pensar" - e, tendo como
pressuposto esta tomada de consciência, imaginar como poderia ser um mundo
diferente - cenários futuros.
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Índice
Questionar para
Pensar
Cenários
Futuristas ou Fantáticos?
Conclusão |
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Qual o critério de distinção
entre duas classes sociais que o autor desta passagem tem em mente?
Na resposta a esta questão, a
maior parte dos alunos apercebe-se de que o facto de um indivíduo ter mais
ou menos dinheiro do que outro não é um critério que os diferencie como
membros de duas classes sociais distintas. Devem, portanto, existir outro ou
outros critérios que não são, como o anterior, imediatamente visíveis, que
permitirão ao aluno distinguir criticamente uma classe social de outra. É
precisamente neste ponto que o professor deve ajudar o aluno a descobrir por
ele próprio o critério ou os critérios mais adequados ou abrangentes. Para
isso, poderá propor as seguintes opções, pedindo aos alunos que justifiquem
cada uma delas:
-
será a maior ou menor cultura
que distingue dois membros de classes sociais diferentes?
-
ou será a profissão?
-
ou será o acesso desigual ao
poder político?
-
ou será a propriedade dos
meios de produção?
Pede-se então aos alunos para
hierarquizar estes critérios segundo a ordem crescente da sua importância,
ou seja, para colocarem em primeiro lugar o critério que consideram que
melhor define e determina a distinção entre duas classes sociais. Depois de
efectuarem esta hierarquização, pedir-se-lhes-á para justificarem as suas
escolhas.
Na maior parte dos casos, os
alunos escolhem correctamente a última opção, embora nem sempre consigam
justificá-la de modo correcto. Intuem, de certo modo, que os outros três
critérios não são demasiado abrangentes, situando-se no mesmo plano, nas
sociedades liberais-democráticas, do rejeitado critério do rendimento
monetário. Competirá então ao professor analisar e escolher a opção e a
justificação mais fundamentada. Geralmente a argumentação mais correcta
considera que o proprietário dos meios de produção detém um poder de
controlo sobre a actividade económica e sobre a repartição da riqueza que
lhe permite não só exercer uma maior influência política nas sociedades em
que todos têm direito de voto, mas também facilitar o acesso dos seus filhos
e familiares mais próximos às profissões que conferem maior estatuto e às
universidades mais prestigiosas.
Quando chegarem a este ponto, os
alunos já estarão aptos a verificar que existem estratos e diferenciações no
seio de uma determinada classe social que podem opor dois indivíduos da
mesma classe, mas não os convertem em membros de classes sociais diferentes.
Assim, no seio das classes proprietárias há que distinguir grandes, médios e
pequenos proprietários por ramos de actividade, aproximando-se os últimos
cada vez mais, pela sua situação económica, das classes que não detém
propriedade. No seio das classes que não detém propriedade, que são
obrigadas a trabalhar por conta de outrem encontramos também uma série de
estratos e diferenciações que, no entanto, não são também suficientes para
que os seus membros pertençam a classes sociais diferentes. De um modo geral,
o objectivo que nos propusemos com a realização deste exercício que visava
questionar as pré-noções do senso comum sobre a distinção entre as classes
sociais era levar os alunos a chegar a uma noção de classe social, que
embora incompleta e imperfeita, é mais abrangente do que as que se baseiam
no rendimento, no estatuto profissional, no prestígio social e cultural: uma
classe social distingue-se de outra pela parte da riqueza social que dispõe
e, sobretudo, pelo maior ou menor poder que esta riqueza lhe confere em
organizar e controlar a actividade económica em função dos seus próprios
interesses e objectivos.
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Conclusão
Os dois métodos utilizados para
libertar a criatividade do aluno visam fundamentalmente reforçar a sua
capacidade crítica e de confronto com os limites da realidade social
existente. Pretende-se extrair uma lição: a Sociologia não deve limitar-se a
descrever assepticamente a realidade, mas, pelo contrário, deve interpretá-la
criticamente e contribuir para a sua transformação. Reforçar o pensamento
divergente do aluno em Sociologia não tem, como defendem os partidários de
uma neutralidade axiológica nas Ciências Sociais, consequências
anticientíficas. Antes pelo contrário, os maiores cientistas sociais foram,
pelo menos, rebeldes na juventude e alguns mesmo na idade adulta. O papel do
professor é contribuir para o florescimento destas potencialidades criativas
dos alunos, orientando-as e canalizando-as para a intervenção social e
política, para a criação de cidadãos activos e empenhados, que nunca são
submissos nem conformistas. Esta é a condição necessária para a formação de
bons cientistas sociais. Como diz Piaget, o inconformismo é a escola do
génio: "Ao comparar o trabalho dos indivíduos com o seu antigo comportamento
de adolescentes, apercebemo-nos, geralmente, de que aqueles que, entre os 15
e 17 anos, nunca construíram sistemas inserindo o seu programa de vida num
vasto conjunto de reformas, ou aqueles que, ao primeiro contacto com a vida
material, sacrificaram de pronto o seu ideal quimérico aos seus novos
interesses de adultos, não foram os mais produtivos. A metafísica própria do
adolescente, assim como as suas paixões e a sua megalomania, são assim
preparações reais para a criação pessoal, e o exemplo do génio demonstra que
há sempre continuidade entre a formação da personalidade, a partir dos 11 ou
12 anos, e a obra ulterior do homem" (Piaget, Jean - Seis Estudos de
Psicologia, Lisboa, 1983, pág. 101). |
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