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última actualização:
1.Jan.200
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A Criatividade no Processo de Ensino-Aprendizagem,

da Criatividade do Professor à Criatividade do Aluno

artigo de Joaquim Jorge Veiguinha

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Manuel Rivas, articulista do jornal El País, escreve estas palavras elucidativas e perspicazes a propósito da profissão de professor: "Ser professor não exige apenas um título académico. Um bom professor do ensino básico e secundário tem que ter o carisma de um presidente do Governo, o que está certamente ao seu alcance; a autoridade de um custódio, o que já se torna mais difícil, e os talentos combinados de um psicólogo, um palhaço, um DJ, um ajudante de cozinheiro, um puericultor, um mestre budista e um comandante da Kfor. Conheço uma professora de Ciências Naturais que apenas desarmou os seus alunos quando demonstrou uns invulgares conhecimentos futebolísticos, o que lhe permitiu abordar com entusiasmo a evolução das espécies. E um professor de Matemática que conseguiu conquistar a audiência quando interpretou um rap de Public Enemy Number One." (El País Semanal, 2 de Abril de 2000)

Segundo este texto, o bom professor deverá ser polivalentemente criativo. Ao contrário das outras profissões, em que a criatividade é determinada pelo tipo de especialização exigida para o tipo de função desempenhada, na profissão de professor é necessário revelar uma grande capacidade de representação e uma perspicácia na detecção das necessidades e motivações dos alunos com o objectivo de interessar e conseguir a participação de uma audiência em que, frequentemente, a capacidade de concentração e atenção se orienta para outros horizontes, eventualmente mais atractivos do que o do processo de ensino-aprendizagem.

O papel do professor consistirá, portanto, em tornar apelativo e, mesmo atractivo, o que, em princípio, pode parecer cinzento e descolorido, sem cair, no entanto, na facilidade gratuita. Isto significa que deve conhecer minimamente o universo em que se movem os seus alunos, um universo muito subordinado aos meios audiovisuais, às estrelas do pop-rock e às mutações contínuas das modas, a fim de lhes despertar uma criatividade, cada vez mais submergida num mundo em que os jovens se reduzem a alvos de estratégias publicitárias que os reduzem ao papel de meros consumidores passivos. Deve partir-se, então, desse universo, que não difere substancialmente da caverna platónica, para o transformar, elevando os alunos à dimensão do conhecimento e da consciência do mundo em que estão inseridos. Só assim se poderão transformar em sujeitos activos e empreendedores e em cidadãos empenhados na resolução dos problemas colectivos.

Não está em causa a criatividade do aluno, pois todos os seres humanos são criativos, embora alguns o sejam mais do que outros. Em geral, acontece que a maior parte dos indivíduos não têm possibilidade de manifestar livremente a sua criatividade durante toda a sua existência, já que desempenham uma tarefa laboral repetitiva, monótona e dependente das ordens que recebem das chefias. A criatividade manifesta-se, antes de tudo, pela capacidade de inovar e de resolver problemas inesperados, bem como pela capacidade de decidir autonomamente e, sobretudo, pelo inconformismo: não aceitar passivamente tudo aquilo que a tradição, a moda e as opiniões dominantes pretendem impor incondicionalmente. Hoje em dia, a criatividade está cada vez mais ligada ao inconformismo e ao desenvolvimento de uma capacidade crítica que penetra para além do imediato, das aparências para detectar os mecanismos reais de funcionamento da economia, da sociedade e da política, para além do horizonte cerrado dos índices bolsistas e das campanhas publicitárias em que se transformaram as eleições nas sociedades liberais-democráticas.

Como professor de Sociologia do 12º ano de escolaridade, pretendo desenvolver uma dimensão da criatividade dos alunos, criatividade que é sempre multifacetada, pelo menos na adolescência, período das dúvidas e das indecisões, mas também das apostas: a sua capacidade crítica de forma a orientar o seu inconformismo. Tarefa difícil, antes de tudo porque é a primeira vez que os alunos contactam com a disciplina. Segundo, por um conjunto de pré-noções que já possuem e que os leva a identificar a Sociologia como uma disciplina em que se fala sobre "a sociedade", mas sem saber ao certo quais são as grandes estruturas, normas e valores que numa determinada época, neste caso, a nossa, regem os comportamentos e as relações sociais. Em terceiro, porque pensam que em Sociologia tudo se pode dizer acerca de tudo e, em consequência, estudar o menos possível.

Neste contexto, desenvolver a criatividade do aluno passa menos pela utilização de métodos e técnicas analógicas e mais pela utilização do método "questionar para pensar" e, sobretudo, do método antitético, tentando sobretudo levar os alunos a construir cenários futuros, que alguns poderão designar por cenários fantásticos. Tendo em conta o objecto e conteúdos da Sociologia, estes métodos não devem ser concebidos como um jogo para estimular as capacidades lúdicas ou dramáticas dos alunos, mas como uma forma de tomarem consciência do mundo em que estão inseridos - "questionar para pensar" - e, tendo como pressuposto esta tomada de consciência, imaginar como poderia ser um mundo diferente - cenários futuros.

 

Índice

Questionar para Pensar

Cenários Futuristas ou Fantáticos?

Conclusão

 

Questionar para pensar

Um dos temas mais importantes para a compreensão da sociedade actual do programa de Sociologia do 12º ano é a questão das classes sociais. Depois de uma primeira consulta aos alunos, verifica-se que quase todos, quando interrogados sobre o que pensam ser uma classe social e como distinguem uma classe social de outra, têm tendência para afirmar que dois indivíduos pertencentes a duas classes sociais diferentes distinguem-se pelo dinheiro ou pelo rendimento monetário que possuem. Verifica-se, portanto, que com este tipo de respostas os alunos tendem a reproduzir a opinião do senso comum não crítico para o qual o critério de distinção das classes sociais se reduz à maior ou menor dimensão da bolsa ou do porta-moedas dos indivíduos. Como a criatividade nas Sociologia deve ter como ponto de partida, segundo a minha tese, o rigor crítico analítico e precisamente a superação das pré-noções do senso comum, proponho a seguinte actividade, que poderá ser desenvolvida no espaço de uma aula, com o objectivo de questionar as certezas aparentemente sólidas e inabaláveis do senso comum:

 

 

Actividade
Considere a seguinte passagem, extraída de um autor que estudou: "O grosseiro bom senso transforma a distinção entre classes em tamanho do porta-moedas. A medida do porta-moedas é uma medida puramente quantitativa, pela qual é sempre possível lançar um contra o outro dois indivíduos da mesma classe" (Marx, Karl - A Sagrada Família, cit. por Duverger, Maurice, Sociologia da Política, Coimbra, 1983, pág. 182).

   
 

Qual o critério de distinção entre duas classes sociais que o autor desta passagem tem em mente?

Na resposta a esta questão, a maior parte dos alunos apercebe-se de que o facto de um indivíduo ter mais ou menos dinheiro do que outro não é um critério que os diferencie como membros de duas classes sociais distintas. Devem, portanto, existir outro ou outros critérios que não são, como o anterior, imediatamente visíveis, que permitirão ao aluno distinguir criticamente uma classe social de outra. É precisamente neste ponto que o professor deve ajudar o aluno a descobrir por ele próprio o critério ou os critérios mais adequados ou abrangentes. Para isso, poderá propor as seguintes opções, pedindo aos alunos que justifiquem cada uma delas:

  • será a maior ou menor cultura que distingue dois membros de classes sociais diferentes?

  • ou será a profissão?

  • ou será o acesso desigual ao poder político?

  • ou será a propriedade dos meios de produção?

Pede-se então aos alunos para hierarquizar estes critérios segundo a ordem crescente da sua importância, ou seja, para colocarem em primeiro lugar o critério que consideram que melhor define e determina a distinção entre duas classes sociais. Depois de efectuarem esta hierarquização, pedir-se-lhes-á para justificarem as suas escolhas.

Na maior parte dos casos, os alunos escolhem correctamente a última opção, embora nem sempre consigam justificá-la de modo correcto. Intuem, de certo modo, que os outros três critérios não são demasiado abrangentes, situando-se no mesmo plano, nas sociedades liberais-democráticas, do rejeitado critério do rendimento monetário. Competirá então ao professor analisar e escolher a opção e a justificação mais fundamentada. Geralmente a argumentação mais correcta considera que o proprietário dos meios de produção detém um poder de controlo sobre a actividade económica e sobre a repartição da riqueza que lhe permite não só exercer uma maior influência política nas sociedades em que todos têm direito de voto, mas também facilitar o acesso dos seus filhos e familiares mais próximos às profissões que conferem maior estatuto e às universidades mais prestigiosas.

Quando chegarem a este ponto, os alunos já estarão aptos a verificar que existem estratos e diferenciações no seio de uma determinada classe social que podem opor dois indivíduos da mesma classe, mas não os convertem em membros de classes sociais diferentes. Assim, no seio das classes proprietárias há que distinguir grandes, médios e pequenos proprietários por ramos de actividade, aproximando-se os últimos cada vez mais, pela sua situação económica, das classes que não detém propriedade. No seio das classes que não detém propriedade, que são obrigadas a trabalhar por conta de outrem encontramos também uma série de estratos e diferenciações que, no entanto, não são também suficientes para que os seus membros pertençam a classes sociais diferentes. De um modo geral, o objectivo que nos propusemos com a realização deste exercício que visava questionar as pré-noções do senso comum sobre a distinção entre as classes sociais era levar os alunos a chegar a uma noção de classe social, que embora incompleta e imperfeita, é mais abrangente do que as que se baseiam no rendimento, no estatuto profissional, no prestígio social e cultural: uma classe social distingue-se de outra pela parte da riqueza social que dispõe e, sobretudo, pelo maior ou menor poder que esta riqueza lhe confere em organizar e controlar a actividade económica em função dos seus próprios interesses e objectivos.

 

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Cenários futuristas ou fantásticos?

Uma disciplina como a Sociologia não se deve, porém, limitar a desenvolver a capacidade de questionamento e de crítica dos alunos. Deve também contribuir para libertar a sua imaginação das amarras da realidade existente, levando-os a conceber uma outra realidade mais justa que se contraponha à actual. Neste sentido, o método antitético de desenvolvimento da criatividade é o mais adequado para se conseguir este resultado, surgindo como complemento e reforço do método anterior. A construção de cenários futuros a partir do confronto com a realidade actual surge como o tipo de método antitético mais fecundo nestas situações. Na base deste método propõe-se a seguinte actividade:

   
 

Actividade
Escreve uma composição a propósito de como imaginas que se comportariam as pessoas numa sociedade futura em que não existissem classes sociais. Dá-lhe um título.

   
 

Esta composição poderia ser feita em grupo e seria apresentada e exposta na aula onde os alunos justificariam o cenário futuro que tinham elaborado. Pretende-se sobretudo que os alunos imaginem uma sociedade em que as indivíduos já não estão interessados em distinguir-se uns dos outros pela posse dos bens materiais, em que a competição é substituída pela entre-ajuda e em que o trabalho já não é um fardo para a maioria, mas um meio de realização pessoal. Certamente que esta seria, de acordo com o professor, a composição que melhor se aproximava do objectivo pretendido. No entanto, poderiam existir outras igualmente criativas: por exemplo, recebi trabalhos de alunos que onde foram descritos com grandes requintes imaginativos civilizações extraterrestres visitadas por seres do nosso planeta numa viagem interestelar à velocidade da luz. Maravilhados com o desenvolvimento tecnológico, a liberdade e a igualdade desfrutada pelos membros desta civilização os viajantes do nosso planeta não quiseram fazer a viagem de retorno, ao contrário do que acontece nos filmes e romances de ficção científica. Passa-se assim de um cenário futurista para um cenário fantástico, igualmente válido para o objectivo que se pretende com esta actividade que é confrontar a sociedade actual com uma sociedade alternativa que ainda não existe, mas que poderá vir a existir no futuro : o que é fantástico hoje, pode tornar-se real amanhã.

 

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Conclusão

Os dois métodos utilizados para libertar a criatividade do aluno visam fundamentalmente reforçar a sua capacidade crítica e de confronto com os limites da realidade social existente. Pretende-se extrair uma lição: a Sociologia não deve limitar-se a descrever assepticamente a realidade, mas, pelo contrário, deve interpretá-la criticamente e contribuir para a sua transformação. Reforçar o pensamento divergente do aluno em Sociologia não tem, como defendem os partidários de uma neutralidade axiológica nas Ciências Sociais, consequências anticientíficas. Antes pelo contrário, os maiores cientistas sociais foram, pelo menos, rebeldes na juventude e alguns mesmo na idade adulta. O papel do professor é contribuir para o florescimento destas potencialidades criativas dos alunos, orientando-as e canalizando-as para a intervenção social e política, para a criação de cidadãos activos e empenhados, que nunca são submissos nem conformistas. Esta é a condição necessária para a formação de bons cientistas sociais. Como diz Piaget, o inconformismo é a escola do génio: "Ao comparar o trabalho dos indivíduos com o seu antigo comportamento de adolescentes, apercebemo-nos, geralmente, de que aqueles que, entre os 15 e 17 anos, nunca construíram sistemas inserindo o seu programa de vida num vasto conjunto de reformas, ou aqueles que, ao primeiro contacto com a vida material, sacrificaram de pronto o seu ideal quimérico aos seus novos interesses de adultos, não foram os mais produtivos. A metafísica própria do adolescente, assim como as suas paixões e a sua megalomania, são assim preparações reais para a criação pessoal, e o exemplo do génio demonstra que há sempre continuidade entre a formação da personalidade, a partir dos 11 ou 12 anos, e a obra ulterior do homem" (Piaget, Jean - Seis Estudos de Psicologia, Lisboa, 1983, pág. 101).

 

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