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última actualização:
1.Jan.200
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A Criatividade na Formação Musical

Uma Experiência Pessoal

artigo de Rita Maia e Silva

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Ultrapassar os limites estabelecidos, as fronteiras paradigmáticas do conhecimento, desbravar o que até então parecia impossível; estar atento à flutuação de cada um, à influência de cada som, de cada instante e não perder o conjunto de vista; a percepção de que tudo é mutável e sempre inovar inovar...; voltar pacientemente atrás e ir para a frente trinta mil vezes, ver e ouvir, com olhos e ouvidos abertos o que está e o que não está, de trinta mil maneiras diferentes, mesmo que seja um "dejá vù", como a 9ª Sinfonia de Beethoven. Esta é uma postura apreciável no ensino da música.

Estava a frequentar o último ano do Curso Superior de Piano, quando surgiu a hipótese de leccionar a disciplina de Formação Musical, na Academia de Amadores de Música.
Estremeci...

A experiência que tive como aluna fez-me lembrar o enfado que senti. A Educação Musical, cujo objectivo era educar o ouvido a nível rítmico e auditivo, facilitando a compreensão da linguagem musical e consequentemente a evolução a nível da aprendizagem do instrumento, compreendia um conjunto de exercícios e habilidades difíceis, feitos de uma forma repetitiva, rotineira e com pouca imaginação. Anos a fio, fazendo sempre a mesma coisa, numa perspectiva de evolução lenta, mantendo com a música propriamente dita uma relação distante.

O desafio foi enorme. Pôr em causa tudo, de repente, parecia perigoso e de grande responsabilidade. Ousar, arriscar e experimentar tornaram-se prioridades. Conhecer, motivar e aliciar os alunos surgiu como uma necessidade preemente. A relação interactiva professor/aluno, baseada no gosto e prazer de estar uns com os outros, criou um à vontade, favorável à troca de experiências, passagem de informação e conhecimento.

O "feed back" dos alunos foi bastante motivador. Quanto mais se considerava a sua dimensão humana, em todas as potencialidades, menos entupiam não só os canais auditivos, mas talvez ainda mais importante, os canais da comunicação.

No decorrer de esta experiência tornou-se imperativo direccioná-la de uma forma mais objectiva e estruturada; colaborando na elaboração de programas que tivessem um carácter mais abrangenta e interessante em relação à musica, tentando favorecer a interdisciplinariedade. Apesar disto e estando implícito um processo evolutivo, a criatividade não encontra muito espaço neste meio. Há muitas questões complicadas para resolver; e ou por tradição, ou por falta de hábito, não é costume pô-las em causa.

Qual é o papel da Formação Musical? Ensinar a descodificação da linguagem musical, preparando a vida do futuro instrumentista? Preparar um futuro ouvinte? Possibilitar uma formação específica a um x número de amadores? Quais são os limites?...
Esta é, por exemplo, uma questão que origina a maior das controvérsias, provocando pólos opostos. Não há certezas definitivas; as ideias fluem, voam e chocam, mas continuam a circular sem cessar.

Ultrapassando os limites estabelecidos, o ensino da música deveria ser uma questão de formação específica, enriquecendo a imaginação e criatividade de cada um, aprofundando a nossa dimensão, de uma forma gratificante e com múltiplos propósitos, desmistificando a ideia de uma actividade acessível somente aos "grandes talentos".