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Ultrapassar os limites
estabelecidos, as fronteiras paradigmáticas do conhecimento, desbravar o que
até então parecia impossível; estar atento à flutuação de cada um, à
influência de cada som, de cada instante e não perder o conjunto de vista; a
percepção de que tudo é mutável e sempre inovar inovar...; voltar
pacientemente atrás e ir para a frente trinta mil vezes, ver e ouvir, com
olhos e ouvidos abertos o que está e o que não está, de trinta mil maneiras
diferentes, mesmo que seja um "dejá vù", como a 9ª Sinfonia de Beethoven.
Esta é uma postura apreciável no ensino da música.
Estava a frequentar o último ano
do Curso Superior de Piano, quando surgiu a hipótese de leccionar a
disciplina de Formação Musical, na Academia de Amadores de Música.
Estremeci...
A experiência que tive como
aluna fez-me lembrar o enfado que senti. A Educação Musical, cujo objectivo
era educar o ouvido a nível rítmico e auditivo, facilitando a compreensão da
linguagem musical e consequentemente a evolução a nível da aprendizagem do
instrumento, compreendia um conjunto de exercícios e habilidades difíceis,
feitos de uma forma repetitiva, rotineira e com pouca imaginação. Anos a fio,
fazendo sempre a mesma coisa, numa perspectiva de evolução lenta, mantendo
com a música propriamente dita uma relação distante.
O desafio foi enorme. Pôr em
causa tudo, de repente, parecia perigoso e de grande responsabilidade.
Ousar, arriscar e experimentar tornaram-se prioridades. Conhecer, motivar e
aliciar os alunos surgiu como uma necessidade preemente. A relação
interactiva professor/aluno, baseada no gosto e prazer de estar uns com os
outros, criou um à vontade, favorável à troca de experiências, passagem de
informação e conhecimento.
O "feed back" dos alunos foi
bastante motivador. Quanto mais se considerava a sua dimensão humana, em
todas as potencialidades, menos entupiam não só os canais auditivos, mas
talvez ainda mais importante, os canais da comunicação.
No decorrer de esta experiência
tornou-se imperativo direccioná-la de uma forma mais objectiva e estruturada;
colaborando na elaboração de programas que tivessem um carácter mais
abrangenta e interessante em relação à musica, tentando favorecer a
interdisciplinariedade. Apesar disto e estando implícito um processo
evolutivo, a criatividade não encontra muito espaço neste meio. Há muitas
questões complicadas para resolver; e ou por tradição, ou por falta de
hábito, não é costume pô-las em causa.
Qual é o papel da Formação
Musical? Ensinar a descodificação da linguagem musical, preparando a vida do
futuro instrumentista? Preparar um futuro ouvinte? Possibilitar uma formação
específica a um x número de amadores? Quais são os limites?...
Esta é, por exemplo, uma questão que origina a maior das controvérsias,
provocando pólos opostos. Não há certezas definitivas; as ideias fluem, voam
e chocam, mas continuam a circular sem cessar.
Ultrapassando os limites
estabelecidos, o ensino da música deveria ser uma questão de formação
específica, enriquecendo a imaginação e criatividade de cada um,
aprofundando a nossa dimensão, de uma forma gratificante e com múltiplos
propósitos, desmistificando a ideia de uma actividade acessível somente aos
"grandes talentos". |
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