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última actualização:
12.Maio.200
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Construção do bem-estar através da música  (comunicação apresentada no seminário "Percursos para a Construção do Bem-Estar" no dia 5 de Maio de 2006)

artigo de Rita Maia e Silva

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1-      As bases do bem-estar

 

            Escusado será dizer que, apesar de ter consciência de que a música é um dos meios importantes para se atingir um ‘bem-estar’, não me encontro em ‘estado de graça’ permanentemente, quando faço música, ensino música, ou ouço música.  Estaria a mentir, se dissesse o contrário. Digamos que existem momentos excepcionais, de grande prazer e criatividade, que se alternam com outros momentos de menor êxito, de maior neutralidade. Dependendo do nosso estado de espírito e predisposição. Se não existissem contrastes como é que iríamos saber e saborear a diferença? Como é que reconheceríamos o bem estar? Como é que estaríamos aptos a gozá-lo e a desfrutá-lo?

            Nesta dicotomia de prazer/desprazer, sensibilidade/insensibilidade,  gosto/desgosto, atenção/desatenção, motivação/desmotivação, felicidade/infelicidade e outros pares de antónimos, construímos em várias esferas das nossas vidas as bases de um bem estar, que resultam  das opções, preferências manifestadas e referências adquiridas ao longo das nossas vidas. Por isso a noção de bem-estar pode variar de indivíduo para indivíduo; o que me agrada a mim pode não agradar ao parceiro do lado e vice-versa. Contudo, penso haver uma esfera comum, em que todos estamos de acordo em relação à noção de bem estar, senão não ia tanta gente ao cinema, jantar fora, viajar, ir a um concerto, contemplar uma bela paisagem, ler um bom livro, etc. Mas há sempre excepções. Prefiro pensar que o bem estar  é um estado de carácter individual  e que também ocorre em grupo. E dentro de um determinado contexto. A fuga à rotina, por exemplo é tão importante para construir um bem-estar, como a permanência dela. Parece uma incongruência. Mas não é. Precisamos das duas, ambas proporcionam equilíbrio e bem-estar, em situações distintas e com pesos diferentes. Tomar café a seguir a um dia de trabalho, sentado numa esplanada pode ser uma situação de bem-estar. Tomá-lo no intervalo do trabalho pode não dar o mesmo prazer.

          Ainda no âmbito de uma análise generalista, é preciso considerar a atitude/ postura/ motivação/ receptividade do indivíduo ou grupo perante a vivência de determinada acção/  acontecimento/ fenómeno; quer dizer que a situação de bem-estar é usufruída mediante a condição do usufruidor: se este não está ‘para ali virado’, ou porque psicologicamente não está disponível, ou emocionalmente está bloqueado, ou simplesmente não está motivado, o fenómeno responsável pela provocação de bem-estar induzirá, nestas condições, a indiferença e o tédio.

            O bem estar não cai do céu aos trambolhões. Se permanecermos sentados, impávidos e serenos, à espera de uma grande revelação, tudo nos irá parecer insípido e cinzento.

            A capacidade de nos encantar e envolver pelas situações e acontecimentos que vão ocorrendo ao longo da vida, tem como origem uma determinada postura. Uma atitude receptiva, aberta, curiosa e uma motivação constante em querer saber, aprender, conhecer, em suma, viver. Por isso o bem-estar é uma aprendizagem contínua. Requer um equilíbrio e harmonia individual. O bem-estar é exigente, sem avisar. O reflexo está na reacção de cada um e no sentimento usufruído em cada situação.

             As referências são absolutamente necessárias para nos situarmos como indivíduos que integram um todo social. É na aferição constante de gostos e (des)gostos que construímos opções e nos estruturamos, podendo usufruir e optar pelas experiências que nos são propostas ao longo da vida com outra qualidade. Este, é sem dúvida um dos caminhos para a construção de um bem-estar.

 

 2 – Bem-estar na música:

 

            Não há ninguém que deteste música. Falo em detestar. É difícil. Vivemos numa realidade em que o fenómeno sonoro é uma constante, quer seja na Natureza, quer seja organizado na civilização. Existem fenómenos sonoros terríveis e muito agradáveis em ambos os lados. A partir daqui constroem-se gostos e (des)gostos, embora hajam referências de carácter universal: no sentimento terrível estão o barulho das trovoadas, das tempestades, dos furacões e de outros cataclismos e a chamada poluição sonora; o barulho na cidade produzido por carros, apitos, gritos, vozes misturadas, aparelhagens enlouquecidas com o excesso de decibéis, responsáveis, em grande parte, pelo famoso ‘stress’citadino. No Éden estão o canto dos passarinhos, a água a gorgolejar nas fontes, o doce marulhar das folhas, sussurrado pelo vento, as ondas do mar calmo quando batem na praia e os sons organizados pelos humanos; a música. Música clássica, jazz, blues, folk music, pop music, rock music, etc. Linguagens diferentes, estilos diversos.

            A Música é uma forma de comunicação universal. Transmite sentimentos, emoções e estados de espírito diversos. Provoca, em geral, uma sensação de bem-estar.

 -         A música está também associada à palavra, reforçando e completando a mensagem. A música pode estar ao serviço da palavra, ou a palavra ao serviço da música.

-         A música está muitas vezes associada à imagem, reforçando e completando a mensagem. Já alguém afirmou que ‘ o mais importante no cinema é a música’.

 

             A música encerra em si contrastes: a noção de consonância/dissonância, conforto/desconforto. Quando falamos em música consonante, pensamos na ‘cultura tonal’ que nos rodeia desde há centenas de anos, transmitindo-nos um conjunto de referências. Na música dissonante, pensamos em música atonal, desenvolvida desde o início do séc. XX, que pela linguagem específica que tem, exige uma atenção especial, uma adaptação, um estudo, um gosto direccionado.  A música atonal é erudita e apesar de existir há um século não faz parte de uma cultura ‘corrente’. Para muitos ouvintes é algo ‘estranha’, provavelmente porque a desconhecem.

 

            As características da música, o ritmo, a intensidade, o timbre, o som (melodia/harmonia) influenciam a manifestação das emoções.

            As memórias, as recordações despoletam afectos que se manifestam, quando associados a uma determinada música. A mesma música pode despoletar sentimentos diferentes para um conjunto de pessoas. (referências). Existem estados de espírito de tristeza, de isolamento, de introspecção, em que a música pode provocar sentimentos opostos. Uma música que à partida provocaria serenidade, pode não ser suportada e passar a ser um ruído desagradável. Às vezes, a grande música é apenas o silêncio.

 

 

3 – Bem-estar como músico:

 

1 -  A relação professor/aluno: ao lidar com a linguagem musical, existem momentos de bem-estar, quando, no decorrer do processo ensino/aprendizagem, ou seja, ao fim de um período árduo de trabalho, o aluno consegue interpretar o reportório proposto com nível artístico considerável. Não só é gratificante para o professor, como causa uma sensação de felicidade enorme no aluno. É o atingir de metas para formador e formando numa área que mexe com a sensibilidade, espírito e emoções.

 

2 – O músico instrumentista: não há nada que dê maior prazer do que tocar em tempo real, sobretudo com outros músicos. A sensação de contribuir para um todo que se traduz numa massa sonora poderosa, plena de melodias belas é inigualável. Enaltece a alma de tal maneira, que ultrapassa o sentimento do ouvinte, já que os músicos sabem que são os mensageiros responsáveis.

 

3 – O compositor: o ‘construtor da música’. O processo de criação é intenso e absoluto, nesta área. É uma sensação de plenitude, ouvir uma execução pelos músicos daquilo que se imaginou e criou.

 

   O bem-estar também se trabalha, também se cultiva, ao fim ao cabo. É uma aprendizagem constante.