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1- As bases do bem-estar
Escusado será
dizer que, apesar de ter consciência de que a música é um dos meios
importantes para se atingir um ‘bem-estar’, não me encontro em ‘estado de
graça’ permanentemente, quando faço música, ensino música, ou ouço música.
Estaria a mentir, se dissesse o contrário. Digamos que existem momentos
excepcionais, de grande prazer e criatividade, que se alternam com outros
momentos de menor êxito, de maior neutralidade. Dependendo do nosso estado
de espírito e predisposição. Se não existissem contrastes como é que iríamos
saber e saborear a diferença? Como é que reconheceríamos o bem estar? Como é
que estaríamos aptos a gozá-lo e a desfrutá-lo?
Nesta
dicotomia de prazer/desprazer, sensibilidade/insensibilidade,
gosto/desgosto, atenção/desatenção, motivação/desmotivação,
felicidade/infelicidade e outros pares de antónimos, construímos em várias
esferas das nossas vidas as bases de um bem estar, que resultam das opções,
preferências manifestadas e referências adquiridas ao longo das nossas
vidas. Por isso a noção de bem-estar pode variar de indivíduo para
indivíduo; o que me agrada a mim pode não agradar ao parceiro do lado e
vice-versa. Contudo, penso haver uma esfera comum, em que todos estamos de
acordo em relação à noção de bem estar, senão não ia tanta gente ao cinema,
jantar fora, viajar, ir a um concerto, contemplar uma bela paisagem, ler um
bom livro, etc. Mas há sempre excepções. Prefiro pensar que o bem estar é
um estado de carácter individual e que também ocorre em grupo. E dentro de
um determinado contexto. A fuga à rotina, por exemplo é tão importante para
construir um bem-estar, como a permanência dela. Parece uma incongruência.
Mas não é. Precisamos das duas, ambas proporcionam equilíbrio e bem-estar,
em situações distintas e com pesos diferentes. Tomar café a seguir a um dia
de trabalho, sentado numa esplanada pode ser uma situação de bem-estar.
Tomá-lo no intervalo do trabalho pode não dar o mesmo prazer.
Ainda no âmbito de uma análise generalista, é preciso considerar a
atitude/ postura/
motivação/ receptividade do indivíduo ou grupo
perante a vivência de determinada acção/ acontecimento/
fenómeno; quer dizer que a situação de bem-estar é usufruída mediante
a condição do usufruidor: se este não está ‘para ali virado’, ou porque
psicologicamente não está disponível, ou emocionalmente está bloqueado, ou
simplesmente não está motivado, o fenómeno responsável pela provocação de
bem-estar induzirá, nestas condições, a indiferença e o tédio.
O bem estar
não cai do céu aos trambolhões. Se permanecermos sentados, impávidos e
serenos, à espera de uma grande revelação, tudo nos irá parecer insípido e
cinzento.
A capacidade
de nos encantar e envolver pelas situações e acontecimentos que vão
ocorrendo ao longo da vida, tem como origem uma determinada postura. Uma
atitude receptiva, aberta, curiosa e uma motivação constante em querer
saber, aprender, conhecer, em suma, viver. Por isso o bem-estar é uma
aprendizagem contínua. Requer um equilíbrio e harmonia individual. O
bem-estar é exigente, sem avisar. O reflexo está na reacção de cada um e no
sentimento usufruído em cada situação.
As referências
são absolutamente necessárias para nos situarmos como indivíduos que
integram um todo social. É na aferição constante de gostos e (des)gostos que
construímos opções e nos estruturamos, podendo usufruir e optar pelas
experiências que nos são propostas ao longo da vida com outra qualidade.
Este, é sem dúvida um dos caminhos para a construção de um bem-estar.
2 – Bem-estar na música:
Não há ninguém que deteste música. Falo em detestar. É difícil.
Vivemos numa realidade em que o fenómeno sonoro é uma constante, quer seja
na Natureza, quer seja organizado na civilização. Existem fenómenos sonoros
terríveis e muito agradáveis em ambos os lados. A partir daqui constroem-se
gostos e (des)gostos, embora hajam referências de carácter universal: no
sentimento terrível estão o barulho das trovoadas, das tempestades, dos
furacões e de outros cataclismos e a chamada poluição sonora; o barulho na
cidade produzido por carros, apitos, gritos, vozes misturadas, aparelhagens
enlouquecidas com o excesso de decibéis, responsáveis, em grande parte, pelo
famoso ‘stress’citadino. No Éden estão o canto dos passarinhos, a água a
gorgolejar nas fontes, o doce marulhar das folhas, sussurrado pelo vento, as
ondas do mar calmo quando batem na praia e os sons organizados pelos
humanos; a música. Música clássica, jazz, blues, folk music, pop music, rock
music, etc. Linguagens diferentes, estilos diversos.
A Música é uma
forma de comunicação universal. Transmite sentimentos, emoções e estados de
espírito diversos. Provoca, em geral, uma sensação de bem-estar.
- A música está também
associada à palavra, reforçando e completando a mensagem. A música pode
estar ao serviço da palavra, ou a palavra ao serviço da música.
- A música está
muitas vezes associada à imagem, reforçando e completando a mensagem. Já
alguém afirmou que ‘ o mais importante no cinema é a música’.
A música encerra em si contrastes: a noção de
consonância/dissonância, conforto/desconforto. Quando falamos em música
consonante, pensamos na ‘cultura tonal’ que nos rodeia desde há centenas de
anos, transmitindo-nos um conjunto de referências. Na música dissonante,
pensamos em música atonal, desenvolvida desde o início do séc. XX, que pela
linguagem específica que tem, exige uma atenção especial, uma adaptação, um
estudo, um gosto direccionado. A música atonal é erudita e apesar de
existir há um século não faz parte de uma cultura ‘corrente’. Para muitos
ouvintes é algo ‘estranha’, provavelmente porque a desconhecem.
As características da música, o ritmo, a intensidade, o timbre, o som
(melodia/harmonia) influenciam a manifestação das emoções.
As memórias, as recordações despoletam afectos que se manifestam,
quando associados a uma determinada música. A mesma música pode despoletar
sentimentos diferentes para um conjunto de pessoas. (referências). Existem
estados de espírito de tristeza, de isolamento, de introspecção, em que a
música pode provocar sentimentos opostos. Uma música que à partida
provocaria serenidade, pode não ser suportada e passar a ser um ruído
desagradável. Às vezes, a grande música é apenas o silêncio.
3 – Bem-estar como músico:
1 - A relação
professor/aluno: ao lidar com a linguagem musical, existem momentos de
bem-estar, quando, no decorrer do processo ensino/aprendizagem, ou seja, ao
fim de um período árduo de trabalho, o aluno consegue interpretar o
reportório proposto com nível artístico considerável. Não só é gratificante
para o professor, como causa uma sensação de felicidade enorme no aluno. É o
atingir de metas para formador e formando numa área que mexe com a
sensibilidade, espírito e emoções.
2 – O músico
instrumentista: não há nada que dê maior prazer do que tocar em tempo real,
sobretudo com outros músicos. A sensação de contribuir para um todo que se
traduz numa massa sonora poderosa, plena de melodias belas é inigualável.
Enaltece a alma de tal maneira, que ultrapassa o sentimento do ouvinte, já
que os músicos sabem que são os mensageiros responsáveis.
3 – O compositor: o
‘construtor da música’. O processo de criação é intenso e absoluto, nesta
área. É uma sensação de plenitude, ouvir uma execução pelos músicos daquilo
que se imaginou e criou.
O
bem-estar também se trabalha, também se cultiva, ao fim ao cabo. É uma
aprendizagem constante.
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