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Era uma vez, uma nota
musical que foi parar a um psiquiatra.
Esperava nervosa a sua
vez. Foi então entrevistada, e perguntado qual era o seu problema, pois
nunca se tinha visto uma nota musical ir consultar um psiquiatra.
“Chamo-me Sol”, começou
timidamente.
“ O meu nome é
pronunciado por muitos instrumentos: piano, violino, clarinete, timbales,
voz humana, mas onde gosto mais de estar é na guitarra. Gosto da sua caixa
grande e de ficar aconchegada no artista ou na pessoa que me acolhe”
“Sim, interessante”, disse
o psiquiatra começando a ficar cativado” Mas…siga, siga”
“ Comecei a ter
perturbações”, continuou a nota de sol “ Chamam-me de oitavas diferentes;
uma vez estou muito em baixo, como tão depressa me mandam subir quase uma
montanha. Há partituras…”, disse ela já cansada “ que só me dão vontade de
chorar.”
Começou então a contar a
sua história, a sua família, de onde vinha, não sabendo para onde ir.
“Às vezes”, continuava,
“Chamam-me sol sustenido, outra vez como sol bemol. Outras vezes estou
sozinha e duro dois tempos. Outras, tocam-me apressados e chamam-me
semifusa. Com tantos nomes, tantos sons, tantos ritmos, sinto-me perdida e
só me apetece chorar.”.
O médico interessou-se
muito por este caso. Disse-lhe para vir periodicamente falar de si, conforme
as ideias lhe fossem vindo.
Passou-lhe umas pautas de
música limpas, como receita, e disse à nota de sol que parecia já outra,
aliviada dos seus males:
” Olha bem para estas linhas, escolhe um lugar, uma duração, um compasso com
quem te sintas melhor e deixa-te ir ao sabor da corrente.”
Prosseguiu ”Gozarás de outros sois, de outros instrumentos, da própria voz
humana que te canta com doçura ou mais contraste, pois isso faz parte da
obra e do compositor que escreveu a sinfonia de notas.
Aprende a viver, a reagir.
Não te deixes dominar pelo lá nem pelo si, nem pela oitava do dó que define
a tua família. És livre, voa, voa. Conhece outros mundos, desfruta da vida e da música que é a tua
mãe e sempre te protegerá.”.
A nota de sol despediu-se
reconfortada; dirigiu-se para o táxi mais próximo e disse “Leve-me para a
Casa de Música mais próxima, ou então a um sítio em que vendam pautas ou
cadernos de música”.
Encostou-se bem no
assento, procurou na sua carteira um lápis e uma borracha, e sorriu
confiante para o seu novo destino.
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